Pastagem • 30 de outubro de 2026 • 5 min de leitura

Correção do Perfil do Solo: Quando Usar Calcário e Gesso Agrícola no Pasto

Trator e distribuidor a lanço aplicando calcário dolomítico em reforma de pasto

Mais de 70% das pastagens cultivadas no Brasil estão assentadas sobre solos ácidos e de baixa fertilidade natural, predominantemente Latossolos e Argissolos típicos do Cerrado e da Amazônia. Nesses ambientes, a acidez excessiva, acompanhada de baixos teores de cálcio e magnésio trocáveis e teores tóxicos de alumínio trocável (Al³⁺), funciona como uma barreira invisível que aprisiona as raízes do capim nos primeiros 10 a 15 centímetros de profundidade.

Para transformar uma pastagem degradada em um sistema forrageiro resiliente e de alta lotação, o produtor precisa compreender o papel sinérgico e complementar de duas ferramentas indispensáveis: o calcário e o gesso agrícola.


Calcário vs Gesso Agrícola: Funções Distintas no Solo

Embora ambos contenham cálcio em sua composição, eles possuem comportamentos químicos e objetivos agronômicos completamente diferentes:

ParâmetroCalcário Agrícola (Carbonatos)Gesso Agrícola (Sulfato de Cálcio)
Classificação OficialCorretor de Acidez do SoloCondicionador de Solo / Fertilizante
Composição QuímicaCarbonato de cálcio e magnésio (CaCO₃ + MgCO₃)Sulfato de cálcio di-hidratado (CaSO₄·2H₂O)
Efeito no pH do SoloEleva o pH e neutraliza íons H⁺ e Al³⁺ na camada de contatoNão altera o pH do solo de forma significativa
Solubilidade em ÁguaMuito baixa (aprox. 0,014 g/L); quase imóvel no soloModerada (aprox. 2,5 g/L); 170 vezes mais solúvel que o calcário
Profundidade de AçãoCamada superficial de incorporação (0 a 20 cm)Camadas subsuperficiais profundas (20 a 60 cm)
Nutrientes FornecidosCálcio (Ca) e Magnésio (Mg)Cálcio (Ca) e Enxofre (S)
Perfil de solo mostrando raízes forrageiras profundas livres da toxidez de alumínio após gessagem
Enquanto o calcário atua nos primeiros 20 cm neutralizando acidez, o gesso carrega cálcio e sulfato para as camadas profundas (20-60 cm), estimulando o enraizamento profundo.

Quando e Como Fazer a Calagem em Pastos

A calagem tem como objetivo direto neutralizar a acidez da camada arável (0-20 cm), elevar o pH para níveis entre 5,5 e 6,2, precipitar o alumínio tóxico e elevar a Saturação por Bases (V%):

  • Capins Pouco Exigentes (Brachiaria decumbens, humidicola): Elevar V% para 40% a 50%.
  • Capins Medianamente Exigentes (Brachiaria brizantha cv. Marandu, Piatã): Elevar V% para 50% a 60%.
  • Capins Altamente Exigentes (Panicum maximum cv. Mombaça, Zuri, Tanzânia): Elevar V% para 60% a 70%.

Modalidades de Aplicação:

  1. Em Pastagem Estabelecida (Em Cobertura): Aplicar o calcário a lanço no final do período chuvoso ou início das primeiras chuvas de primavera. A dose máxima recomendada de uma só vez na superfície do pasto sem incorporação mecânica é de 2,0 a 2,5 toneladas por hectare, fracionando doses superiores para evitar perdas e tamponamento superficial.
  2. Na Reforma ou Implantação: Incorporar com grade aradora ou arado nos primeiros 20 cm, preferencialmente 60 a 90 dias antes da semeadura do capim, garantindo tempo de reação com a umidade do solo.

Quando a Gessagem se Torna Obrigatória

A gessagem não substitui o calcário; ela atua onde o calcário não consegue chegar. Como o calcário não possui ânion móvel para descer no perfil do solo, o subsolo (camada de 20 a 40 cm e 40 a 60 cm) frequentemente continua ácido, pobre em cálcio e com alumínio tóxico.

A recomendação de gessagem é disparada quando a análise da camada de 20 a 40 cm apresentar pelo menos uma das seguintes condições:

  1. Teor de Alumínio (Al³⁺) > 0,5 cmolc/dm³; ou
  2. Saturação por Alumínio (m%) > 20%; ou
  3. Teor de Cálcio (Ca²⁺) < 0,5 cmolc/dm³.

O Fenômeno Químico da Descida do Cálcio:

O sulfato (SO₄²⁻) do gesso liga-se temporariamente ao cálcio e ao alumínio no solo, formando pares iônicos neutros como AlSO₄⁺ e CaSO₄⁰. Esses complexos químicos possuem facilidade de percolar com a água das chuvas, transportando o cálcio para o subsolo e neutralizando a toxidez do alumínio em profundidade.

Com o subsolo corrigido, as raízes das forrageiras rompem a barreira química e descem a mais de 1,5 a 2,0 metros de profundidade. Durante o veranico ou na estiagem prolongada, enquanto as pastagens não gessadas secam por falta de água nos primeiros centímetros, o pasto com perfil corrigido continua verde e nutrido, buscando água armazenada nas camadas mais profundas.

Em áreas de recuperação de pastagens degradadas com ILP, a associação correta de calcário e gesso representa a base agronômica que sustenta tanto as safras agrícolas quanto a alta capacidade de suporte bovino.


Perguntas Frequentes (FAQ)

Posso aplicar calcário e gesso misturados no mesmo distribuidor?

Sim. Não há reação química adversa que impeça a mistura física e aplicação simultânea no distribuidor a lanço. A prática economiza óleo diesel e horas de trator. O calcário agirá na camada de 0 a 20 cm enquanto as chuvas lixiviarão o gesso para as camadas inferiores.

Qual o melhor tipo de calcário para pastagens: calcítico ou dolomítico?

O calcário dolomítico (que contém mais de 12% de óxido de magnésio – MgO) é a escolha padrão para a grande maioria das pastagens tropicais, pois os solos brasileiros são severamente deficientes em magnésio, mineral indispensável para a clorofila e a fotossíntese do capim.

De quanto em quanto tempo devo repetir a calagem no pasto?

Em sistemas de pastejo rotacionado bem manejados, uma amostragem de solo deve ser realizada a cada 2 a 3 anos. Se a taxa de lotação for muito alta com adubação nitrogenada intensa (que acidifica o solo), a necessidade de calagem em cobertura pode surgir a cada 3 anos.