Pastagem • 29 de outubro de 2026 • 12 min de leitura

Capim BRS Zuri: Resistência a Fungos, Porte Ereto e Manejo sob Pastejo

Guia técnico do capim zuri características e manejo: resistência à mancha das folhas (Bipolaris), altura de entrada (70-75 cm) e saída (30-35 cm) e pastejo.

Piquete vigoroso de Capim BRS Zuri em ponto ideal de entrada de pastejo rotacionado

O capim zuri características e manejo representa o ápice do melhoramento genético da Embrapa para gramíneas tropicais cespitosas de alta performance (*Megathyrsus maximus* cv. BRS Zuri). Desenvolvido para superar o colapso do Capim Tanzânia frente à mancha-das-folhas (Bipolaris maydis) e oferecer manejo mais amigável do que o Capim Mombaça, o BRS Zuri entrega 21 a 26 toneladas de Matéria Seca por hectare/ano (t MS/ha) com 11% a 15% de Proteína Bruta nas folhas. O segredo do seu sucesso zootécnico está no rigor do pastejo rotacionado: entrada com 70 a 75 cm de altura (95% de interceptação luminosa) e saída com 30 a 35 cm de resíduo, garantindo lotações de 3,5 a 5,0 UA/ha nas águas e GMD de 700 a 900 g/cab/dia.

Durante décadas, pecuaristas intensivos de corte e leite que buscavam alta capacidade de suporte nas águas recorreram às cultivares de Panicum maximum (hoje reclassificadas botanicamente como Megathyrsus maximus): o clássico Colonião, o consagrado Tanzânia e o gigante Mombaça. Contudo, dois gargalos severos desafiavam o dia a dia das fazendas:

  1. No início dos anos 2000, o Capim Tanzânia sofreu uma verdadeira epidemia no Norte e Centro-Oeste brasileiro causada pelo fungo Bipolaris maydis (mancha-das-folhas), que provocava desfolha prematura, queima da forragem e morte de pastos inteiros no Acre, Rondônia, Mato Grosso e Pará;
  2. O Capim Mombaça, embora resistente ao fungo e extraordinariamente produtivo, exige manejo de entrada em 90 cm e saída em 50 cm. Se o produtor atrasar a entrada por apenas 3 a 5 dias nas águas, o Mombaça dispara o alongamento de entrenós, formando colmos grossos e fibrosos (“talo de vassoura”) que o gado rejeita, desperdiçando forragem e dificultando o pastejo subsequente.

Foi para solucionar essa equação biológica que a Embrapa Gado de Corte, em parceria com a Unipasto, lançou comercialmente o BRS Zuri. O cultivar combina alta resistência de campo à mancha de Bipolaris, porte cespitoso ereto de fácil apreensão pelo gado e colmos mais finos e tenros que o Mombaça.

Neste guia técnico definitivo, detalhamos o perfil agronômico do capim zuri características e manejo, o comparativo bromatológico direto contra o Mombaça e o Tanzânia, a régua de pastejo rotacionado e o protocolo de adubação nitrogenada para produzir até 45 a 55 arrobas por hectare ao ano.

Origem Genética e Morfologia: O Que Torna o BRS Zuri Tão Especial?

O BRS Zuri é uma planta cespitosa (que cresce formando touceiras eretas e bem perfilhadas), selecionada a partir de germoplasma coletado originalmente na África Central e submetido a rigorosos ensaios de avaliação agronômica em múltiplos biomas brasileiros (Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica).

Quando analisamos no campo o capim zuri características e manejo, quatro traços morfológicos saltam aos olhos do pecuarista e do zootecnista:

  1. Folhagem Longa, Larga e Levemente Arqueada: As lâminas foliares do BRS Zuri possuem largura intermediária a larga (3,0 a 4,2 cm) e coloração verde-escura intensa, com bordas suavemente serreadas e pilosidade curta na face adaxial. As folhas arqueiam-se suavemente sobre a touceira, criando um dossel denso que fecha o solo mais rápido que o Tanzânia.
  2. Colmo Macio e Menor Acúmulo de Fibra Indigestível: Enquanto o Mombaça engrossa a base do colmo rapidamente após o estádio de 90 cm, o BRS Zuri mantém os entrenós mais tenros e hidratados até a altura de 75 a 80 cm. Isso eleva a aceitação animal (palatabilidade) e reduz a sobra de talos não pastejados no fundo do piquete para menos de 10% a 15%.
  3. Resistência Genuína à Mancha de Bipolaris: Em testes de inoculação artificial e sob pressão natural de inóculo em áreas úmidas de Rondônia e Acre onde o Tanzânia perdia 80% das folhas, o BRS Zuri apresentou resistência de alta magnitude ao fungo Bipolaris maydis, mantendo as folhas verdes, sadias e ativas fotossinteticamente durante todo o período chuvoso.
  4. Resistência às Cigarrinhas-das-Pastagens: O BRS Zuri apresenta alta tolerância às cigarrinhas típicas de pastagens (Notozulia entreriana e Deois flavopicta), não apresentando amarelamento generalizado ou queima das folhas mesmo sob infestações que danificam severamente pastos de Brachiaria decumbens.
Medição da altura do dossel do Capim BRS Zuri em régua graduada no piquete com 75 cm de entrada
A entrada no Capim BRS Zuri com 70 a 75 cm de altura garante 95% de interceptação luminosa e máximo valor proteico foliar antes do alongamento fibroso de colmo.

Comparativo Direto: BRS Zuri vs. Capim Mombaça vs. Capim Tanzânia

Para embasar a escolha da cultivar na hora de reformar ou diversificar as pastagens da fazenda, compilamos na tabela técnica abaixo os principais parâmetros agronômicos, sanitários e nutricionais apurados pela Embrapa e por universidades federais:

Parâmetro Técnico / AgronômicoCapim BRS Zuri (M. maximus)Capim Mombaça (M. maximus)Capim Tanzânia (M. maximus)
Produção Anual de Matéria Seca (t MS/ha)21 a 26 t MS/ha/ano22 a 28 t MS/ha/ano18 a 22 t MS/ha/ano
Proporção de Folhas na Massa Seca (%)68% a 76%60% a 68%70% a 78%
Proteína Bruta nas Folhas (% PB na Seca)11,5% a 15,2%10,5% a 13,8%11,0% a 14,5%
Digestibilidade in vitro da MO (DIVMO)58% a 63%54% a 58%58% a 62%
Resistência à Mancha-das-Folhas (Bipolaris)ALTA (Resistente)Média a AltaBAIXA (Altamente Suscetível)
Resistência a Cigarrinhas-das-PastagensALTA (Tolerante)Alta (Tolerante)Média
Tolerância ao Encharcamento TemporárioModerada (suporta 10 a 15 dias)Baixa a ModeradaBaixa
Altura Recomendada de Entrada no Piquete70 a 75 cm90 cm (muito alto!)70 cm
Altura Recomendada de Saída (Resíduo)30 a 35 cm50 cm30 a 35 cm
Capacidade de Suporte nas Águas (Adubado)3,5 a 5,0 UA/ha3,8 a 5,5 UA/ha3,0 a 4,2 UA/ha

Observando a tabela, fica fácil entender por que o BRS Zuri conquistou o mercado: ele entrega a mesma digestibilidade e qualidade foliar refinada do Tanzânia (DIVMO de até 63% e 15% de PB), mas com a produtividade brutal de biomassa e a resistência sanitária do Mombaça, sem a complexidade de manejar um capim que passa de 1,20 metro se você piscar os olhos!

Manejo de Pastejo Rotacionado: A Janela dos 70–75 cm de Entrada

Assim como detalhamos na nossa metodologia consagrada sobre a altura de entrada e saída no Capim Mombaça, o manejo do BRS Zuri não deve ser feito por “dias fixos de descanso no calendário”, mas sim pela altura do dossel forrageiro.

1. Ponto Ótimo de Entrada: 70 a 75 cm (95% de Interceptação Luminosa)

Pesquisas ecofisiológicas da Esalq/USP e da UFG comprovam que quando o BRS Zuri atinge entre 70 e 75 cm de altura média do dossel, o pasto atinge 95% de Interceptação da Radiação Luminosa (IL).

  • O que isso significa biologicamente? As folhas superiores estão captando quase toda a luz do sol, e as folhas baixeiras (na base da touceira) ainda estão recebendo luz suficiente para não amarelar nem apodrecer por senescência;
  • Nesse momento exato, a taxa de emissão de folhas novas atinge o ápice e o capim ainda não começou a investir energia no alongamento de colmo (a planta não começou a criar talo grosso!).
  • Se você colocar o gado no piquete com 70 a 75 cm, o lote consumirá uma dieta composta por mais de 80% de folhas verdes tenras, garantindo que o rúmen trabalhe em alta velocidade de passagem e entregando Ganho Médio Diário (GMD) de 750 a 900 gramas/cabeça/dia apenas com sal mineralizado!

2. O Perigo de Passar do Ponto (> 85 a 90 cm)

Se por falta de animais no lote ou chuva excessiva você deixar o BRS Zuri passar de 85 cm:

  • Ocorre o auto-sombreamento na base da touceira: a luz não chega às folhas inferiores, que morrem e viram bucha marrom indigestível;
  • A planta alonga o colmo rapidamente para levar a folha mais alto, triplicando o teor de lignina da forragem;
  • O gado consome apenas as pontas das folhas (“desnate”) e rejeita os colmos. O piquete perde estrutura, as touceiras ficam abertas e desuniformes e o aproveitamento da forragem cai de 70% para menos de 40%!

3. Ponto Crítico de Saída: 30 a 35 cm de Resíduo

Para que o BRS Zuri rebrote com velocidade explosiva no pastejo seguinte, ele precisa de uma área foliar remanescente (resíduo pós-pastejo):

  • Retire o lote quando o piquete atingir de 30 a 35 cm de altura média;
  • Esse resíduo de 30 cm mantém folhas verdes suficientes para fazer fotossíntese imediata no dia seguinte à saída do gado, além de proteger as gemas basais da touceira e preservar as reservas de carboidratos solúveis na coroa da raiz;
  • Atenção: Nunca rebaixe o BRS Zuri abaixo de 25 cm (“pastejo rapado”)! O superpastejo destrói as gemas da touceira, enfraquece o sistema radicular, abre espaço para invasoras e dobra o tempo necessário para a rebrota.

Exigências de Solo, Implantação e Adubação do BRS Zuri

Como todo Megathyrsus maximus, o BRS Zuri é uma gramínea exigente em fertilidade química do solo. Não plante BRS Zuri em solos fracos e ácidos sem antes corrigir o perfil, caso contrário a pastagem degradará em menos de 3 anos!

1. Correção e Calagem (Saturação por Bases V > 50% a 60%)

  • Realize amostragem de solo de 0–20 cm e 20–40 cm;
  • O BRS Zuri exige Saturação por Bases ($V\%$) mínima de 50% (o ideal é elevar para 60% a 65%) e teor de matéria orgânica equilibrado;
  • Aplique calcário dolomítico com antecedência de 60 a 90 dias antes do plantio para zerar o Alumínio tóxico ($Al^{3+}$) e elevar o Cálcio e Magnésio, complementando com gesso agrícola se a camada de 20–40 cm apresentar cálcio baixo ou alumínio residual.

2. Taxa de Semeadura e Profundidade de Plantio

  • Utilize sementes fiscalizadas de alta pureza e germinação com garantia de Valor Cultural (VC);
  • Dose Recomendada: Utilize de 350 a 450 pontos de Valor Cultural por hectare (VC/ha) — o que equivale a cerca de 4,5 a 6,0 kg/ha de semente incrustada VC 80%, ou 7 a 9 kg/ha de semente nua convencional VC 50%;
  • Profundidade de Deposição: Semeie a 1,0 a 2,5 cm de profundidade (nunca enterre sementes de Panicum a mais de 3 cm, pois a emergência cai drasticamente!);
  • Faça a compactação leve do solo após a semeadura com rolo compactador para garantir o contato íntimo solo-semente.

3. O Primeiro Pastejo de Desponte (Formação da Touceira)

Cerca de 50 a 65 dias após a emergência das plântulas (quando o capim atinge 65 a 70 cm de altura e o sistema radicular está bem ancorado — teste puxando uma touceira com a mão para ver se ela não é arrancada com raiz e terra):

  • Coloque uma grande quantidade de animais leves (bezerros desmamados ou garrotes de 200–250 kg) por apenas 2 a 3 dias para fazer o pastejo de desponte, rebaixando o capim para cerca de 35 a 40 cm;
  • Esse desponte inicial quebra a dominância apical do colmo principal e estimula um perfilhamento basal vigoroso, fechando o espaço entre as touceiras e blindando o solo contra a erosão e ervas daninhas.

4. Adubação de Produção nas Águas (Nitrogênio e Potássio)

Para sustentar 4 a 5 cabeças por hectare nas águas, o BRS Zuri precisa de adubação nitrogenada e potássica fracionada:

  • Em sistemas intensivos, aplique de 120 a 250 kg de Nitrogênio ($N$) por hectare ao ano parcelados em 3 a 5 aplicações durante a estação chuvosa (outubro a março), sempre aplicando imediatamente após a saída do gado de cada piquete e com solo úmido;
  • Acompanhe com Potássio ($K_2O$) na proporção de $0,8\text{ a }1,0\text{ kg de }K_2O$ para cada 1 kg de $N$ aplicado, utilizando as melhores práticas descritas no nosso artigo sobre manejo de pastagens no período seco e transição.

Perguntas Frequentes sobre o Capim BRS Zuri

O Capim BRS Zuri resiste mesmo à mancha de Bipolaris que matou o Capim Tanzânia?

Sim! O BRS Zuri foi selecionado e lançado pela Embrapa especificamente por apresentar altíssimo nível de resistência genética à mancha-das-folhas causada pelo fungo Bipolaris maydis. Enquanto o Tanzânia sofre queima severa e perde as folhas sob calor e umidade contínua, o BRS Zuri mantém as folhas verdes e sadias até a base da touceira.

Qual a altura certa de colocar e tirar o gado do Capim BRS Zuri?

No pastejo rotacionado, a altura ideal de entrada é de 70 a 75 cm (ponto em que o dossel intercepta 95% da luz solar sem alongar talo excessivo) e a altura de saída (resíduo) é de 30 a 35 cm. Esse manejo garante rebrota rápida e consumo exclusivo de folhas de alto valor nutricional.

O BRS Zuri serve para pastejo contínuo ou só para rotacionado?

Embora tolere pastejo contínuo com ajuste quinzenal de lotação para manter a altura média entre 40 e 50 cm, o BRS Zuri expressa seu verdadeiro potencial genético de 25 toneladas de MS/ha e alta capacidade de suporte no pastejo rotacionado. No pastejo contínuo, os animais tendem a superpastejar as touceiras mais novas e rejeitar as touceiras mais velhas, desuniformizando o pasto.

Posso plantar Capim BRS Zuri em solos arenosos ou de baixa fertilidade?

O BRS Zuri não é recomendado para solos arenosos de baixíssima fertilidade sem pesada correção química e adubação. Trata-se de uma forrageira nobre que exige Saturação por Bases ($V\%$) acima de 50% a 60% e bom suprimento de Fósforo e Nitrogênio. Em solos arenosos fracos e secos, cultivares como o BRS Paiaguás ou a Brachiaria decumbens são opções agronômicas mais rústicas.

O Capim BRS Zuri aguenta áreas que alagam no período chuvoso?

O BRS Zuri apresenta tolerância moderada ao encharcamento temporário do solo (suportando lâmina d’água superficial ou solo saturado por 10 a 15 dias consecutivos sem morrer, superando o Mombaça e o Tanzânia). Contudo, ele não tolera solos permanentemente alagados ou brejosos; para áreas de várzea com alagamento prolongado, a forrageira recomendada é a Brachiaria humidicola ou o Capim Tangola.

Quantos animais o Capim BRS Zuri consegue manter por hectare?

Em pastos bem formados, corrigidos e com adubação nitrogenada de 150 a 200 kg N/ha nas águas, o BRS Zuri suporta com tranquilidade de 3,5 a 5,0 Unidades Animais (UA) por hectare (cerca de 4 a 6 garrotes de 350 kg por hectare) durante todo o período chuvoso, proporcionando ganhos de até 1,0 kg/cab/dia com suplementação proteica estratégica.

Sobre o Especialista

Dr. João Silva (CRMV-GO / Zootecnista e Consultor em Manejo de Pastagens Tropicais) atua há mais de 18 anos no planejamento forrageiro, implantação de módulos de pastejo rotacionado intensivo e adubação de gramíneas tropicais em fazendas de corte e leite no Brasil Central e Norte. Assina a curadoria técnica do Jornal Campo Soberano.