O capim zuri características e manejo representa o ápice do melhoramento genético da Embrapa para gramíneas tropicais cespitosas de alta performance (*Megathyrsus maximus* cv. BRS Zuri). Desenvolvido para superar o colapso do Capim Tanzânia frente à mancha-das-folhas (Bipolaris maydis) e oferecer manejo mais amigável do que o Capim Mombaça, o BRS Zuri entrega 21 a 26 toneladas de Matéria Seca por hectare/ano (t MS/ha) com 11% a 15% de Proteína Bruta nas folhas. O segredo do seu sucesso zootécnico está no rigor do pastejo rotacionado: entrada com 70 a 75 cm de altura (95% de interceptação luminosa) e saída com 30 a 35 cm de resíduo, garantindo lotações de 3,5 a 5,0 UA/ha nas águas e GMD de 700 a 900 g/cab/dia.
Durante décadas, pecuaristas intensivos de corte e leite que buscavam alta capacidade de suporte nas águas recorreram às cultivares de Panicum maximum (hoje reclassificadas botanicamente como Megathyrsus maximus): o clássico Colonião, o consagrado Tanzânia e o gigante Mombaça. Contudo, dois gargalos severos desafiavam o dia a dia das fazendas:
- No início dos anos 2000, o Capim Tanzânia sofreu uma verdadeira epidemia no Norte e Centro-Oeste brasileiro causada pelo fungo Bipolaris maydis (mancha-das-folhas), que provocava desfolha prematura, queima da forragem e morte de pastos inteiros no Acre, Rondônia, Mato Grosso e Pará;
- O Capim Mombaça, embora resistente ao fungo e extraordinariamente produtivo, exige manejo de entrada em 90 cm e saída em 50 cm. Se o produtor atrasar a entrada por apenas 3 a 5 dias nas águas, o Mombaça dispara o alongamento de entrenós, formando colmos grossos e fibrosos (“talo de vassoura”) que o gado rejeita, desperdiçando forragem e dificultando o pastejo subsequente.
Foi para solucionar essa equação biológica que a Embrapa Gado de Corte, em parceria com a Unipasto, lançou comercialmente o BRS Zuri. O cultivar combina alta resistência de campo à mancha de Bipolaris, porte cespitoso ereto de fácil apreensão pelo gado e colmos mais finos e tenros que o Mombaça.
Neste guia técnico definitivo, detalhamos o perfil agronômico do capim zuri características e manejo, o comparativo bromatológico direto contra o Mombaça e o Tanzânia, a régua de pastejo rotacionado e o protocolo de adubação nitrogenada para produzir até 45 a 55 arrobas por hectare ao ano.
Origem Genética e Morfologia: O Que Torna o BRS Zuri Tão Especial?
O BRS Zuri é uma planta cespitosa (que cresce formando touceiras eretas e bem perfilhadas), selecionada a partir de germoplasma coletado originalmente na África Central e submetido a rigorosos ensaios de avaliação agronômica em múltiplos biomas brasileiros (Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica).
Quando analisamos no campo o capim zuri características e manejo, quatro traços morfológicos saltam aos olhos do pecuarista e do zootecnista:
- Folhagem Longa, Larga e Levemente Arqueada: As lâminas foliares do BRS Zuri possuem largura intermediária a larga (3,0 a 4,2 cm) e coloração verde-escura intensa, com bordas suavemente serreadas e pilosidade curta na face adaxial. As folhas arqueiam-se suavemente sobre a touceira, criando um dossel denso que fecha o solo mais rápido que o Tanzânia.
- Colmo Macio e Menor Acúmulo de Fibra Indigestível: Enquanto o Mombaça engrossa a base do colmo rapidamente após o estádio de 90 cm, o BRS Zuri mantém os entrenós mais tenros e hidratados até a altura de 75 a 80 cm. Isso eleva a aceitação animal (palatabilidade) e reduz a sobra de talos não pastejados no fundo do piquete para menos de 10% a 15%.
- Resistência Genuína à Mancha de Bipolaris: Em testes de inoculação artificial e sob pressão natural de inóculo em áreas úmidas de Rondônia e Acre onde o Tanzânia perdia 80% das folhas, o BRS Zuri apresentou resistência de alta magnitude ao fungo Bipolaris maydis, mantendo as folhas verdes, sadias e ativas fotossinteticamente durante todo o período chuvoso.
- Resistência às Cigarrinhas-das-Pastagens: O BRS Zuri apresenta alta tolerância às cigarrinhas típicas de pastagens (Notozulia entreriana e Deois flavopicta), não apresentando amarelamento generalizado ou queima das folhas mesmo sob infestações que danificam severamente pastos de Brachiaria decumbens.
Comparativo Direto: BRS Zuri vs. Capim Mombaça vs. Capim Tanzânia
Para embasar a escolha da cultivar na hora de reformar ou diversificar as pastagens da fazenda, compilamos na tabela técnica abaixo os principais parâmetros agronômicos, sanitários e nutricionais apurados pela Embrapa e por universidades federais:
| Parâmetro Técnico / Agronômico | Capim BRS Zuri (M. maximus) | Capim Mombaça (M. maximus) | Capim Tanzânia (M. maximus) |
|---|---|---|---|
| Produção Anual de Matéria Seca (t MS/ha) | 21 a 26 t MS/ha/ano | 22 a 28 t MS/ha/ano | 18 a 22 t MS/ha/ano |
| Proporção de Folhas na Massa Seca (%) | 68% a 76% | 60% a 68% | 70% a 78% |
| Proteína Bruta nas Folhas (% PB na Seca) | 11,5% a 15,2% | 10,5% a 13,8% | 11,0% a 14,5% |
| Digestibilidade in vitro da MO (DIVMO) | 58% a 63% | 54% a 58% | 58% a 62% |
| Resistência à Mancha-das-Folhas (Bipolaris) | ALTA (Resistente) | Média a Alta | BAIXA (Altamente Suscetível) |
| Resistência a Cigarrinhas-das-Pastagens | ALTA (Tolerante) | Alta (Tolerante) | Média |
| Tolerância ao Encharcamento Temporário | Moderada (suporta 10 a 15 dias) | Baixa a Moderada | Baixa |
| Altura Recomendada de Entrada no Piquete | 70 a 75 cm | 90 cm (muito alto!) | 70 cm |
| Altura Recomendada de Saída (Resíduo) | 30 a 35 cm | 50 cm | 30 a 35 cm |
| Capacidade de Suporte nas Águas (Adubado) | 3,5 a 5,0 UA/ha | 3,8 a 5,5 UA/ha | 3,0 a 4,2 UA/ha |
Observando a tabela, fica fácil entender por que o BRS Zuri conquistou o mercado: ele entrega a mesma digestibilidade e qualidade foliar refinada do Tanzânia (DIVMO de até 63% e 15% de PB), mas com a produtividade brutal de biomassa e a resistência sanitária do Mombaça, sem a complexidade de manejar um capim que passa de 1,20 metro se você piscar os olhos!
Manejo de Pastejo Rotacionado: A Janela dos 70–75 cm de Entrada
Assim como detalhamos na nossa metodologia consagrada sobre a altura de entrada e saída no Capim Mombaça, o manejo do BRS Zuri não deve ser feito por “dias fixos de descanso no calendário”, mas sim pela altura do dossel forrageiro.
1. Ponto Ótimo de Entrada: 70 a 75 cm (95% de Interceptação Luminosa)
Pesquisas ecofisiológicas da Esalq/USP e da UFG comprovam que quando o BRS Zuri atinge entre 70 e 75 cm de altura média do dossel, o pasto atinge 95% de Interceptação da Radiação Luminosa (IL).
- O que isso significa biologicamente? As folhas superiores estão captando quase toda a luz do sol, e as folhas baixeiras (na base da touceira) ainda estão recebendo luz suficiente para não amarelar nem apodrecer por senescência;
- Nesse momento exato, a taxa de emissão de folhas novas atinge o ápice e o capim ainda não começou a investir energia no alongamento de colmo (a planta não começou a criar talo grosso!).
- Se você colocar o gado no piquete com 70 a 75 cm, o lote consumirá uma dieta composta por mais de 80% de folhas verdes tenras, garantindo que o rúmen trabalhe em alta velocidade de passagem e entregando Ganho Médio Diário (GMD) de 750 a 900 gramas/cabeça/dia apenas com sal mineralizado!
2. O Perigo de Passar do Ponto (> 85 a 90 cm)
Se por falta de animais no lote ou chuva excessiva você deixar o BRS Zuri passar de 85 cm:
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- Ocorre o auto-sombreamento na base da touceira: a luz não chega às folhas inferiores, que morrem e viram bucha marrom indigestível;
- A planta alonga o colmo rapidamente para levar a folha mais alto, triplicando o teor de lignina da forragem;
- O gado consome apenas as pontas das folhas (“desnate”) e rejeita os colmos. O piquete perde estrutura, as touceiras ficam abertas e desuniformes e o aproveitamento da forragem cai de 70% para menos de 40%!
3. Ponto Crítico de Saída: 30 a 35 cm de Resíduo
Para que o BRS Zuri rebrote com velocidade explosiva no pastejo seguinte, ele precisa de uma área foliar remanescente (resíduo pós-pastejo):
- Retire o lote quando o piquete atingir de 30 a 35 cm de altura média;
- Esse resíduo de 30 cm mantém folhas verdes suficientes para fazer fotossíntese imediata no dia seguinte à saída do gado, além de proteger as gemas basais da touceira e preservar as reservas de carboidratos solúveis na coroa da raiz;
- Atenção: Nunca rebaixe o BRS Zuri abaixo de 25 cm (“pastejo rapado”)! O superpastejo destrói as gemas da touceira, enfraquece o sistema radicular, abre espaço para invasoras e dobra o tempo necessário para a rebrota.
Exigências de Solo, Implantação e Adubação do BRS Zuri
Como todo Megathyrsus maximus, o BRS Zuri é uma gramínea exigente em fertilidade química do solo. Não plante BRS Zuri em solos fracos e ácidos sem antes corrigir o perfil, caso contrário a pastagem degradará em menos de 3 anos!
1. Correção e Calagem (Saturação por Bases V > 50% a 60%)
- Realize amostragem de solo de 0–20 cm e 20–40 cm;
- O BRS Zuri exige Saturação por Bases ($V\%$) mínima de 50% (o ideal é elevar para 60% a 65%) e teor de matéria orgânica equilibrado;
- Aplique calcário dolomítico com antecedência de 60 a 90 dias antes do plantio para zerar o Alumínio tóxico ($Al^{3+}$) e elevar o Cálcio e Magnésio, complementando com gesso agrícola se a camada de 20–40 cm apresentar cálcio baixo ou alumínio residual.
2. Taxa de Semeadura e Profundidade de Plantio
- Utilize sementes fiscalizadas de alta pureza e germinação com garantia de Valor Cultural (VC);
- Dose Recomendada: Utilize de 350 a 450 pontos de Valor Cultural por hectare (VC/ha) — o que equivale a cerca de 4,5 a 6,0 kg/ha de semente incrustada VC 80%, ou 7 a 9 kg/ha de semente nua convencional VC 50%;
- Profundidade de Deposição: Semeie a 1,0 a 2,5 cm de profundidade (nunca enterre sementes de Panicum a mais de 3 cm, pois a emergência cai drasticamente!);
- Faça a compactação leve do solo após a semeadura com rolo compactador para garantir o contato íntimo solo-semente.
3. O Primeiro Pastejo de Desponte (Formação da Touceira)
Cerca de 50 a 65 dias após a emergência das plântulas (quando o capim atinge 65 a 70 cm de altura e o sistema radicular está bem ancorado — teste puxando uma touceira com a mão para ver se ela não é arrancada com raiz e terra):
- Coloque uma grande quantidade de animais leves (bezerros desmamados ou garrotes de 200–250 kg) por apenas 2 a 3 dias para fazer o pastejo de desponte, rebaixando o capim para cerca de 35 a 40 cm;
- Esse desponte inicial quebra a dominância apical do colmo principal e estimula um perfilhamento basal vigoroso, fechando o espaço entre as touceiras e blindando o solo contra a erosão e ervas daninhas.
4. Adubação de Produção nas Águas (Nitrogênio e Potássio)
Para sustentar 4 a 5 cabeças por hectare nas águas, o BRS Zuri precisa de adubação nitrogenada e potássica fracionada:
- Em sistemas intensivos, aplique de 120 a 250 kg de Nitrogênio ($N$) por hectare ao ano parcelados em 3 a 5 aplicações durante a estação chuvosa (outubro a março), sempre aplicando imediatamente após a saída do gado de cada piquete e com solo úmido;
- Acompanhe com Potássio ($K_2O$) na proporção de $0,8\text{ a }1,0\text{ kg de }K_2O$ para cada 1 kg de $N$ aplicado, utilizando as melhores práticas descritas no nosso artigo sobre manejo de pastagens no período seco e transição.
Perguntas Frequentes sobre o Capim BRS Zuri
O Capim BRS Zuri resiste mesmo à mancha de Bipolaris que matou o Capim Tanzânia?
Sim! O BRS Zuri foi selecionado e lançado pela Embrapa especificamente por apresentar altíssimo nível de resistência genética à mancha-das-folhas causada pelo fungo Bipolaris maydis. Enquanto o Tanzânia sofre queima severa e perde as folhas sob calor e umidade contínua, o BRS Zuri mantém as folhas verdes e sadias até a base da touceira.
Qual a altura certa de colocar e tirar o gado do Capim BRS Zuri?
No pastejo rotacionado, a altura ideal de entrada é de 70 a 75 cm (ponto em que o dossel intercepta 95% da luz solar sem alongar talo excessivo) e a altura de saída (resíduo) é de 30 a 35 cm. Esse manejo garante rebrota rápida e consumo exclusivo de folhas de alto valor nutricional.
O BRS Zuri serve para pastejo contínuo ou só para rotacionado?
Embora tolere pastejo contínuo com ajuste quinzenal de lotação para manter a altura média entre 40 e 50 cm, o BRS Zuri expressa seu verdadeiro potencial genético de 25 toneladas de MS/ha e alta capacidade de suporte no pastejo rotacionado. No pastejo contínuo, os animais tendem a superpastejar as touceiras mais novas e rejeitar as touceiras mais velhas, desuniformizando o pasto.
Posso plantar Capim BRS Zuri em solos arenosos ou de baixa fertilidade?
O BRS Zuri não é recomendado para solos arenosos de baixíssima fertilidade sem pesada correção química e adubação. Trata-se de uma forrageira nobre que exige Saturação por Bases ($V\%$) acima de 50% a 60% e bom suprimento de Fósforo e Nitrogênio. Em solos arenosos fracos e secos, cultivares como o BRS Paiaguás ou a Brachiaria decumbens são opções agronômicas mais rústicas.
O Capim BRS Zuri aguenta áreas que alagam no período chuvoso?
O BRS Zuri apresenta tolerância moderada ao encharcamento temporário do solo (suportando lâmina d’água superficial ou solo saturado por 10 a 15 dias consecutivos sem morrer, superando o Mombaça e o Tanzânia). Contudo, ele não tolera solos permanentemente alagados ou brejosos; para áreas de várzea com alagamento prolongado, a forrageira recomendada é a Brachiaria humidicola ou o Capim Tangola.
Quantos animais o Capim BRS Zuri consegue manter por hectare?
Em pastos bem formados, corrigidos e com adubação nitrogenada de 150 a 200 kg N/ha nas águas, o BRS Zuri suporta com tranquilidade de 3,5 a 5,0 Unidades Animais (UA) por hectare (cerca de 4 a 6 garrotes de 350 kg por hectare) durante todo o período chuvoso, proporcionando ganhos de até 1,0 kg/cab/dia com suplementação proteica estratégica.
Sobre o Especialista
Dr. João Silva (CRMV-GO / Zootecnista e Consultor em Manejo de Pastagens Tropicais) atua há mais de 18 anos no planejamento forrageiro, implantação de módulos de pastejo rotacionado intensivo e adubação de gramíneas tropicais em fazendas de corte e leite no Brasil Central e Norte. Assina a curadoria técnica do Jornal Campo Soberano.
