Agricultura • 24 de outubro de 2026 • 4 min de leitura

Uso de Fungos Micorrízicos na Absorção de Fósforo em Culturas de Grãos

Perfil de solo com sistema radicular adensado e hifas de fungos micorrízicos em cultura de grãos

O fósforo (P) é o macronutriente mais limitante e oneroso para a produção agrícola de grãos e pastagens nos solos do Cerrado brasileiro. Embora muitas propriedades apliquem centenas de quilos de adubos fosfatados solúveis (como superfosfato simples ou triplo e MAP) a cada safra, menos de 20% a 30% do fósforo aplicado é efetivamente absorvido pelas raízes da soja ou do milho.

O restante da adubação sofre o fenômeno químico da adsorção e fixação do fósforo, ligando-se fortemente aos óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio das argilas tropicais, transformando-se em um imenso estoque químico inacessível para o sistema radicular da planta.

Nesse cenário, o avanço dos bioinsumos à base de Fungos Micorrízicos Arbusculares (FMA) surge como uma verdadeira revolução biológica para destravar esse fósforo do solo.


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O Que São Fungos Micorrízicos Arbusculares (FMA)?

A palavra micorriza deriva do grego e significa literalmente “fungo-raiz”. Trata-se de uma simbiose mutualística perfeita estabelecida há mais de 450 milhões de anos entre fungos da divisão Glomeromycota e as raízes de mais de 80% das plantas terrestres:

  • O Que o Fungo Recebe: A planta fotossintetiza e transfere carboidratos simples (glicose e sacarose) e lipídios para sustentar o metabolismo do fungo no interior do córtex radicular.
  • O Que a Planta Recebe: Em troca, o fungo desenvolve uma gigantesca rede subterrânea de hifas extrarradiculares, finíssimos filamentos microscópicos que exploram microporos do solo onde os pelos absorventes das raízes jamais conseguiriam penetrar.
Lavoura de grãos com inoculação biológica apresentando alta sanidade radicular e resistência a veranicos
As hifas fúngicas estendem o alcance das raízes em até 10 vezes, absorvendo o fósforo retido nas frações argilosas do solo do Cerrado.

Mecanismos de Absorção e Destravamento de Fósforo

O fósforo se desloca no solo predominantemente por difusão lenta, percorrendo distâncias minúsculas de apenas 0,1 a 0,2 milímetros por dia na solução do solo. Por essa razão, as raízes logo esgotam o fósforo ao seu redor imediato (zona de depleção).

As micorrizas superam esse obstáculo através de dois mecanismos complementares:

Mecanismo MicorrízicoModo de Ação no SoloImpacto na Cultura de Soja e Milho
Exploração de MicroporosAs hifas possuem diâmetro de 2 a 5 micrômetros (10 vezes mais finas que raízes), ampliando a superfície de contato em até 1.000%.Acesso a reservatórios de água e nutrientes retidos na microporosidade do solo.
Secreção de Ácidos Orgânicos e FosfatasesO fungo libera enzimas (fosfatases ácidas) e ácidos cítrico e oxálico que quelam ferro e alumínio.Solubilização direta do fósforo fixado, liberando ânions ortofosfato livres para absorção radicular.
Produção de GlomalinaGlicoproteína insolúvel e hidrofóbica excretada pelas hifas nas paredes dos agregados do solo.Estabilidade de agregados do solo, retenção hídrica superior e sequestro de carbono orgânico recalcitrante.

Resiliência a Veranicos e Redução de Insumos Químicos

Nas safras agrícolas do Brasil Central, a ocorrência de veranicos de 10 a 20 dias durante a fase reprodutiva da soja costuma causar quedas drásticas de produtividade. Plantas colonizadas por fungos micorrízicos mantêm taxas transpiratórias e fotossintéticas estáveis por muito mais tempo.

As hifas atuam como verdadeiros dutos subterrâneos contínuos, trazendo água das camadas mais profundas e evitando o abortamento precoce de flores e vagens.

Associado a um manejo rigoroso de adubação fosfatada e fixação radicular, o uso de inoculantes biológicos permite ao produtor reduzir as doses anuais de P₂O₅ em até 20% a 30% sem perder rendimento em sacas por hectare.


Perguntas Frequentes (FAQ)

Os fungicidas de tratamento de sementes (TSI) matam as micorrizas?

Fungicidas químicos convencionais podem inibir temporariamente a germinação dos esporos micorrízicos se aplicados na mesma calda de inoculação. A recomendação padrão é fazer o tratamento fungicida químico com antecedência e aplicar o inoculante micorrízico biológico no sulco de plantio ou no momento do plantio com inoculadores específicos.

Como saber se o solo da fazenda já tem fungos micorrízicos nativos?

Quase todos os solos agrícolas possuem espécies nativas de micorrizas. No entanto, solos submetidos a aradura pesada, queima de palhada, monocultivo contínuo e uso excessivo de adubos solúveis acidificantes possuem populações nativas escassas e pouco eficientes, justificando a reintrodução de cepas comerciais selecionadas.

As micorrizas funcionam também em gramíneas forrageiras de pastagem?

Excepcionalmente bem. As braquiárias e panicuns respondem com vigor extraordinário à colonização micorrízica, aumentando o perfilhamento, a densidade de folhas e a tolerância ao pastejo intensivo em solos de baixa fertilidade.