Bovinos de Corte • 14 de outubro de 2026 • 8 min de leitura

Uso de DDG e WDG na Alimentação de Bovinos de Corte: Níveis Ideais e Rendimento

Bovinos de corte em confinamento moderno recebendo ração balanceada com inclusão de DDG de milho

A expansão meteórica das indústrias de etanol de milho no Brasil revolucionou a nutrição de ruminantes, disponibilizando em larga escala dois dos mais valiosos coprodutos proteico-energéticos do agronegócio: o DDG (Dried Distillers Grains ou grãos secos de destilaria) e o WDG (Wet Distillers Grains ou grãos úmidos de destilaria). Para o pecuarista que busca elevar o ganho de carcaça e otimizar custos operacionais no confinamento ou na suplementação a pasto, dominar o uso desses alimentos é um diferencial competitivo decisivo.

Ao contrário do milho moído tradicional, que baseia seu aporte energético no amido de rápida fermentação ruminal, o DDG e o WDG oferecem alta densidade energética oriunda de lipídios e fibra solúvel de alta digestibilidade, combinada a uma expressiva fração de proteína passante (PNDR).


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O Que São DDG e WDG: Origem e Concentração Nutricional

No processo industrial de fabricação do etanol, o amido contido no grão de milho — que responde por cerca de 65% a 70% da massa original do grão — é transformado em açúcares simples via hidrólise enzimática e posteriormente fermentado por leveduras (Saccharomyces cerevisiae).

Com a remoção quase total do amido, todos os demais componentes originais do grão são concentrados em aproximadamente três vezes. O resultado desse refino divide-se comercialmente em duas apresentações principais:

  1. WDG (Wet Distillers Grains): Coproduto úmido obtido imediatamente após a destilação e centrifugação da vinhaça espessa. Apresenta entre 30% e 35% de matéria seca (MS), textura pastosa e elevada palatabilidade. Sua umidade natural funciona como um excelente aglutinante físico para forragens picadas e ingredientes finos da ração total misturada (TMR).
  2. DDG / DDGS (Dried Distillers Grains with Solubles): Coproduto submetido a secagem térmica industrial com a adição dos solúveis concentrados (thin stillage condensada). Apresenta de 88% a 90% de matéria seca, o que viabiliza o transporte rodoviário a longas distâncias, armazenagem a granel ou ensaque em big bags sem necessidade de uso imediato.

Tabela Comparativa: Bromatologia do Milho vs DDG/WDG vs Farelos Nobres

Compreender o valor zootécnico do DDG exige comparar sua composição nutricional frente aos principais ingredientes proteicos e energéticos da pecuária nacional:

Parâmetro Bromatológico (% da MS)Milho Grão MoídoDDGS TípicoWDG TípicoTorta de AlgodãoFarelo de Soja 46%
Matéria Seca (MS %)87 – 89%88 – 90%30 – 35%89 – 91%88 – 89%
Proteína Bruta (PB %)8,5 – 9,5%28,0 – 32,0%29,0 – 33,0%26,0 – 30,0%46,0 – 48,0%
Nutrientes Digestíveis Totais (NDT %)82 – 84%84 – 88%86 – 90%72 – 76%80 – 82%
Extrato Etéreo (EE %)3,8 – 4,2%8,5 – 12,5%9,0 – 13,0%6,5 – 9,0%1,5 – 2,5%
Fibra em Detergente Neutro (FDN %)9,0 – 12,0%32,0 – 38,0%34,0 – 40,0%38,0 – 44,0%12,0 – 15,0%
Proteína Não Degradável no Rúmen (PNDR %)~55%60 – 68%62 – 70%40 – 45%30 – 35%

Enquanto o milho é puramente energético e o farelo de soja prioritariamente proteico, o DDGS atua como um ingrediente de dupla aptidão: fornece mais de 30% de PB com NDT superior a 85%, impulsionado pela concentração dos óleos naturais do milho.


Vantagens Zootécnicas e Fisiologia Ruminal

A utilização técnica de coprodutos de destilaria promove reflexos diretos na microbiota ruminal e na taxa de deposição tecidual dos animais:

1. Prevenção de Acidose Ruminal Subaguda (SARA)

Em dietas convencionais com alta proporção de concentrado, o acúmulo de amido desencadeia a proliferação acelerada de bactérias produtoras de ácido lático (Streptococcus bovis), reduzindo drasticamente o pH do rúmen e desencadeando o quadro de acidose ruminal subaguda (SARA).

No DDG e WDG, a matriz energética consiste em carboidratos estruturais altamente digestíveis (pectina e hemicelulose) associados a lipídios vegetais. A digestão desses elementos não produz ácido lático em excesso, permitindo manter o pH ruminal estável entre 6,0 e 6,4. Isso preserva as papilas ruminais, previne laminite e estimula o consumo contínuo e uniforme de matéria seca ao longo do dia.

Detalhe macro da ração total misturada TMR com coprodutos de destilaria de milho DDG e WDG no cocho
A fibra solúvel e os lipídios do DDG e WDG oferecem alta densidade energética sem produzir ácido lático, prevenindo distúrbios metabólicos no cocho.

2. Aporte Maciço de Proteína Passante (PNDR / Bypass)

Mais de 60% da fração proteica do DDGS e WDG escapa da degradação ruminal por microrganismos e atinge diretamente o intestino delgado na forma de Proteína Não Degradável no Rúmen (PNDR). Essa fração é absorvida diretamente como aminoácidos essenciais (lisina, metionina, leucina), potencializando a síntese muscular e o rendimento de carcaça no frigorífico.

Ao planejar estratégias nutricionais para potencializar o GMD, o nutricionista equilibra a ureia ou o nitrogênio do pasto (PDR) com a proteína de escape do DDG, maximizando a eficiência biológica do nitrogênio consumido.

3. Redução da Seleção no Cocho e Melhora da Textura com WDG

Em dietas secas de confinamento, ingredientes pulverulentos como minerais e farelos finos costumam segregar e sobrar no fundo do cocho. A umidade de 65% a 70% do WDG atua como um ligante natural, unindo forragens e concentrados em uma massa homogênea. Isso impede a seleção por parte de animais dominantes e estabiliza o consumo, facilitando a leitura de cocho no confinamento.


Níveis Ideais de Inclusão e Manejo Prático no Confinamento e a Pasto

Para alcançar a máxima rentabilidade sem causar distúrbios zootécnicos, os níveis de inclusão devem obedecer a diretrizes claras:

Confinamento de Bovinos de Corte

  • Faixa Recomendada: 15% a 30% da matéria seca (MS) da dieta total.
  • Substituição de Farelo de Soja: A inclusão de 20% a 25% de DDGS permite substituir integralmente o farelo de soja e de 15% a 20% do milho em grão, gerando expressiva economia por arroba produzida.
  • Teto do Extrato Etéreo (EE): A dieta total de confinamento não deve ultrapassar 6,5% a 7,0% de extrato etéreo na base seca. Concentrações lipídicas superiores a esse patamar podem recobrir as fibras forrageiras no rúmen e inibir microrganismos fibrolíticos, reduzindo a digestibilidade total.

Terminação Intensiva a Pasto (TIP) e Semiconfinamento

  • Fornecimento: 0,8% a 1,2% do peso vivo (PV) do lote ao dia.
  • Na terminação intensiva a pasto (TIP), a associação de DDGS com milho e ionóforos promove ganhos de peso superiores a 1,300 kg/cabeça/dia sem a necessidade de produzir silagem volumosa na propriedade.
  • Como em qualquer mudança de plano alimentar, deve-se adotar o protocolo de adaptação para dietas concentradas, escalonando o fornecimento ao longo de 10 a 14 dias para adaptar a microbiota e as papilas do rúmen.

Logística e Cuidados Operacionais: Armazenamento e Enxofre

A decisão entre trabalhar com WDG ou DDG envolve considerações logísticas e sanitárias indispensáveis:

  1. Logística e Tempo de Prateleira do WDG:
    • Devido ao elevado teor de água (~65%), o frete rodoviário onera o custo por tonelada de matéria seca útil. O raio econômico recomendável fica entre 150 km e 250 km da usina.
    • Estabilidade: Exposto ao ar em temperatura tropical, o WDG começa a fermentar e desenvolver bolores em 3 a 5 dias. Para estocar volumes maiores, é indispensável a compactação em silo bolsa ou silo trincheira com rápida vedação anaeróbica por lona plástica de barreira de oxigênio.
  2. Atenção ao Teor de Enxofre (S):
    • As usinas utilizam ácido sulfúrico para higienização e controle de pH nos fermentadores industriais, o que pode elevar o teor de enxofre do DDG/WDG para 0,40% a 0,80% na matéria seca.
    • O teor total de enxofre da ração completa não deve ultrapassar 0,40% da matéria seca para prevenir a polioencefalomalácia (PEM), necrose cerebrocortical causada pelo excesso de gás sulfídrico no rúmen. Recomenda-se realizar análise laboratorial periódica de enxofre no lote recebido e checar a água dos bebedouros.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O DDG pode substituir 100% do farelo de soja na dieta de confinamento?

Sim. Na grande maioria das dietas de terminação no Brasil, a inclusão de 18% a 25% de DDG ou WDG na matéria seca atende plenamente as demandas de proteína bruta e proteína metabolizável, dispensando o farelo de soja e barateando o custo da tonelada de matéria seca.

Qual a vantagem econômica do WDG frente ao DDGS?

O WDG costuma ter um custo por ponto de proteína e energia inferior ao DDGS na usina, pois não demanda o gasto energético do processo de secagem térmica. No entanto, sua viabilidade econômica depende de a fazenda estar localizada próxima à indústria para compensar o frete da água transportada.

O teor de gordura do DDG pode deprimir o consumo de ração?

Apenas se a dieta total ultrapassar 6,5% a 7,0% de extrato etéreo na matéria seca. Dentro dos limites técnicos de formulação (15% a 30% de inclusão), o extrato etéreo fornece energia concentrada e melhora a palatabilidade global do cocho.


Conclusão: Eficiência e Rentabilidade Nutricional

O DDG e o WDG consolidaram-se como ativos estratégicos indispensáveis para a moderna pecuária de corte brasileira. Ao unirem alta proteína, energia de digestão segura e fibra funcional, esses coprodutos permitem ao pecuarista desafiar metas de ganho de peso e encurtar o ciclo de terminação com sustentabilidade e alta rentabilidade por hectare.