Pastagem • 30 de outubro de 2026 • 4 min de leitura

Identificação e Controle Integrado das Cigarrinhas dos Pastos (Spittlebugs)

Pasto denso e bem pastejado monitorado quanto à incidência de ninfas e espumas de cigarrinha

Com o retorno das primeiras chuvas no início do período das águas, os pecuaristas brasileiros deparam-se anualmente com a emergência de uma das pragas mais destrutivas da forragicultura tropical: as cigarrinhas-das-pastagens. Pertencentes à ordem Hemiptera, esses pequenos insetos têm a capacidade de dizimar a capacidade de suporte dos piquetes em poucas semanas, provocando a clássica “queima do pasto”.

Quando o ataque atinge altas densidades populacionais, as folhas perdem a capacidade fotossintética, secam completamente e tornam-se rejeitadas pelo gado, obrigando o produtor a desocupar piquetes e arcar com compras emergenciais de concentrado.

Adotar o Manejo Integrado de Pragas (MIP) — unindo monitoramento precoce, controle biológico e ajuste na altura de pastejo — é a estratégia mais sustentável e econômica para blindar a fazenda contra esse prejuízo.


O Ciclo da Praga: Da Espuma Protetora à Injeção de Toxinas

O ciclo biológico das cigarrinhas divide-se em duas fases com modos de agressão distintos:

  1. Fase de Ninfa (Sob a Espuma Protetora): Os ovos depositados na base do capim passam a estação seca em estado de dormência (diapausa). Com as primeiras chuvas e o aumento da umidade do solo, eclodem ninfas brancas e frágeis. Para não morrerem desidratadas, as ninfas fixam-se no colo das plantas e produzem uma espuma branca característica, rica em secreções mucilaginosas e bolhas de ar. Ali protegidas, sugam a seiva elaborada das raízes superficiais;
  2. Fase Adulta (A “Queima” Foliar): Após completarem as mudas, emergem os adultos alados (Notozulia entreriana, Deois flavopicta, Mahanarva spectabilis). Os adultos sobem para as folhas e sugam a seiva celular. Durante a sucção, injetam uma toxina na folha que destrói os cloroplastos, provocando estrias amareladas que evoluem para secamento e necrose avermelhada total da lâmina foliar em poucos dias.
O controle biológico com o fungo entomopatogênico Metarhizium anisopliae aplicado na primeira geração de ninfas evita o colapso e a queima das folhas do pasto.

Principais Espécies no Brasil e Susceptibilidade Forrageira

Nem todas as gramíneas forrageiras reagem da mesma forma ao ataque das cigarrinhas:

Espécie de Cigarrinha / CultivarComportamento no PastoSusceptibilidade / Tolerância da Gramínea
Notozulia entrerianaNinfas na base da touceira; adultos atacam folhas medianasO capim Marandu possui alta resistência por antibiose; Urochloa decumbens é extremamente susceptível
Deois flavopictaMuito comum no Cerrado; listras amarelas nas asas pretasAtaca intensamente capins dos gêneros Urochloa e Panicum
Mahanarva spectabilisA maior espécie; ataca a base de colmos grossosDevastadora em capim-elefante (BRS Capiaçu) e cana-de-açúcar
BRS Piatã / BRS ZuriCultivares modernos selecionados pela EmbrapaAlta tolerância: mantêm rebrota ativa mesmo sob ataque moderado

Os Três Pilares do Manejo Integrado de Cigarrinhas (MIP)

O controle eficiente não se faz com uma única pulverização química milagrosa, mas sim pela integração de três práticas:

1. Manejo Mecânico da Altura de Pastejo (Dessecação Solar)

As ninfas da cigarrinha são extremamente sensíveis à radiação solar direta e à baixa umidade. Ao manter o pasto na altura correta de manejo e realizar um pastejo intenso no início das chuvas, a entrada de sol atinge o colo da touceira, secando a espuma protetora e matando as ninfas por desidratação térmica de forma 100% natural.

2. Controle Biológico com o Fungo Metarhizium anisopliae

O bioinseticida à base do fungo entomopatogênico Metarhizium anisopliae é a ferramenta biológica mais recomendada. Os esporos do fungo aderem à cutícula da ninfa e do adulto, germinam, invadem o corpo do inseto e o mumificam em 5 a 7 dias, cobrindo o cadáver com uma eflorescência verde que dissemina o fungo para outras cigarrinhas no piquete. A aplicação deve ser feita no final da tarde ou em dias nublados, na dosagem recomendada pelo fabricante.

3. Monitoramento com Quadrado de Amostragem (1 m²)

Caminhar pelos piquetes no início das chuvas com um quadrado de madeira ou PVC de 1 metro de lado:

  • Se encontrar mais de 20 ninfas ou mais de 50 adultos por metro quadrado, o Nível de Dano Econômico foi atingido e a intervenção deve ser imediata.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O capim Marandu é totalmente imune às cigarrinhas?

O capim Marandu (Urochloa brizantha cv. Marandu) apresenta mecanismo de antibiose contra as espécies comuns de Notozulia e Deois, provocando a morte das ninfas jovens. Contudo, ele é susceptível à Mahanarva spectabilis e é extremamente sensível à Síndrome da Morte da Braquiária.

Posso aplicar inseticida químico convencional?

O uso de inseticidas químicos (como neonicotinoides associados a piretroides) deve ser reservado apenas para casos emergenciais de infestação extrema. O uso contínuo de químicos elimina inimigos naturais benéficos (como aranhas e formigas predadoras), gerando reinfestações ainda piores semanas depois.


Conclusão: Monitorar para Não Remediar

As cigarrinhas das pastagens não precisam ser sinônimo de prejuízo financeiro. Com monitoramento atencioso no início da brotação das águas, respeito à luminosidade do pastejo e aplicação de controle biológico com Metarhizium, o pecuarista mantém os pastos viçosos e verdes, garantindo suporte forrageiro ininterrupto para a engorda do rebanho.

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