Saúde Animal • 29 de outubro de 2026 • 10 min de leitura

Protocolo de Tratamento e Isolamento para Ceratoconjuntivite no Rebanho

Conheça o protocolo contra a ceratoconjuntivite infecciosa bovina (Moraxella bovis): sintomas (olho branco), colírios, antibióticos sistêmicos e isolamento.

Médica veterinária realizando avaliação sanitária e exame ocular em bovino no tronco de contenção

A ceratoconjuntivite infecciosa bovina manejo (popularmente chamada de “doença do olho branco” ou “mal dos olhos”) é uma enfermidade ocular altamente contagiosa causada primariamente pela bactéria Moraxella bovis, capaz de disseminar-se rapidamente em bezerros desmamados e lotes de confinamento. O quadro clínico evolui rapidamente de um lacrimejamento abundante (epífora) e fotofobia para uma úlcera de córnea central com opacidade esbranquiçada e risco de perfuração do globo ocular com cegueira permanente. O sucesso do controle baseia-se no tratamento precoce com antibióticos sistêmicos de alta penetração ocular (oxitetraciclina LA ou florfenicol), proteção contra radiação solar, controle rigoroso de moscas vetores e o isolamento imediato dos animais acometidos em piquete-hospital sombreado.

Dentre as afecções que acometem a saúde de bezerros na desmama e bovinos de corte em sistemas intensivos, a Ceratoconjuntivite Infecciosa Bovina (CIB) figura entre as mais dolorosas e economicamente subestimadas. Embora apresente baixa taxa de mortalidade direta, a morbidade em um rebanho suscetível pode ultrapassar 50% a 70% dos animais, deflagrando perdas zootécnicas avassaladoras.

Um animal com ceratite aguda sofre dor ocular excruciante, fotofobia e perda temporária ou permanente da visão. Impossibilitado de enxergar o caminho até os bebedouros e cochos, o bezerro deixa de se alimentar, isola-se no pasto, perde rapidamente de 10 a 25 kg de peso vivo em menos de duas semanas e torna-se presa fácil para desidratação e infecções oportunistas secundárias.

A transmissão é rápida e facilitada pela combinação de alta intensidade de radiação ultravioleta (UV), poeira suspensa em currais de confinamento e a proliferação descontrolada de moscas vetores (Musca domestica, Stomoxys calcitrans e a mosca-dos-olhos), que transferem a bactéria de um olho doente para um olho sadio em questão de minutos.

Neste guia médico-veterinário aprofundado, detalhamos a etiologia da doença, a evolução clínica em quatro estágios, o protocolo terapêutico de antibióticos e anti-inflamatórios e o manejo sanitário de isolamento para conter o surto no rebanho.


1. Agentes Etiológicos e Fatores Predisponentes no Rebanho

A principal responsável pela doença é a Moraxella bovis, uma bactéria gram-negativa, aeróbia estrita e com formato de cocobacilo. Recentemente, estudos da Embrapa Gado de Corte e universidades identificaram a co-infecção frequente com a Moraxella bovoculi e com o herpesvírus bovino tipo 1 (BoHV-1 / causador da IBR), agravando a agressividade das lesões.

                           FATORES DE DISSEMINAÇÃO DA CERATOCONJUNTIVITE
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       VETORES MECÂNICOS              IRRITAÇÃO AMBIENTAL             SUSCETIBILIDADE ANIMAL
   - Moscas (Musca domestica)      - Poeira de confinamento         - Bezerros pós-desmama
   - Moscas-dos-chifres            - Radiação ultravioleta intensa  - Raças sem pigmentação periocular
   - Contato direto em cochos      - Capim alto com espinhos        - Estresse e queda imunitária

Por que a bactéria destrói a córnea tão rapidamente?

A virulência da M. bovis reside em dois fatores biológicos centrais:

  1. Fímbrias ou Pili de Aderência: Estruturas proteicas em formato de pelos que permitem à bactéria fixar-se tenazmente às células do epitélio da córnea e da conjuntiva, resistindo à lavagem natural pelas lágrimas;
  2. Citotoxina Hemolítica (Leucocidina e Hemolisina): A bactéria libera toxinas potentes que perfuram a membrana dos ceratócitos e glóbulos brancos, deflagrando lise celular imediata e liquefação enzimática do estroma da córnea, o que gera a característica úlcera corneana crateriforme.

Raças e Pigmentação Periocular:

Animais de pelagem branca ou sem pigmentação ao redor dos olhos — como raças europeias puras (Hereford, Charolês) e alguns cruzados industriais — são significativamente mais suscetíveis à ceratoconjuntivite do que zebuínos como o Nelore, cujas pálpebras pretas absorvem a radiação UV e protegem a conjuntiva.

O diagnóstico precoce e a administração de oxitetraciclina LA evitam a progressão da opacidade corneana para úlceras profundas e cegueira permanente.

2. As Quatro Fases Clínicas da Ceratoconjuntivite Bovina

O reconhecimento precoce pelo vaqueiro no curral de lida é o fator mais determinante para salvar o olho do animal antes que a lesão se torne irreversível:

Fase ClínicaSinais e Sintomas Visíveis no AnimalGravidadePrognóstico de Cura
Estágio 1: Inicial (Epífora e Fotofobia)Olho constantemente fechado (blefaroespasmo), lacrimejamento seroso intenso umedecendo o pelo da face e sensibilidade aguda à luz solar. Pequena mancha turva no centro da córnea (< 2 mm).LeveExcelente (100% de recuperação) com colírio ou antibiótico
Estágio 2: Ceratite e Opacidade CentralA córnea perde o brilho e torna-se totalmente opaca e esbranquiçada (“olho de vidro”). Vascularização periférica (vasos sanguíneos vermelhos invadem a córnea). O animal perde a visão funcional daquele olho.ModeradaBom (recuperação com pequena cicatriz leuco)
Estágio 3: Úlcera Corneana ProfundaA cratera ulcerativa aprofunda-se até a membrana de Descemet. Acúmulo de fibrina e pus na câmara anterior (hipópio). A córnea assume tom amarelado ou rosado intenso. Dor extrema.GraveReservado (deixa cicatriz leuco densa / cegueira)
Estágio 4: Perfuração e EstafilomaA membrana rompe e ocorre herniação da íris através do orifício (estafiloma). O olho “estoura”, perde o humor aquoso e colapsa com infecção interna bacteriana (panoftalmite).GravíssimaIrreversível (perda anatômica definitiva do olho)

3. Protocolo Terapêutico Medicamentoso Passo a Passo

O tratamento deve ser iniciado no mesmo dia em que o primeiro sinal de lacrimejamento for identificado no lote. Atrasar o início da medicação por 48 a 72 horas pode significar a perda definitiva da visão daquele olho.

1. Antibioticoterapia Sistêmica (Padrão-Ouro de Eficácia)

Ao contrário do que muitos pensam, o uso exclusivo de colírios ou pomadas oftálmicas é insuficiente em surtos de campo, pois a lágrima contínua lava a medicação em poucos minutos. A base da cura é o antibiótico injetável que atinge altas concentrações no fluido lacrimal:

  • Opção A (Mais Utilizada): Oxitetraciclina de Longa Ação (LA 20%):
    • Dose: 20 mg/kg de peso vivo (1,0 mL para cada 10 kg de PV), aplicada por via intramuscular profunda;
    • Frequência: Dose única; se necessário, repetir uma segunda aplicação após 72 horas em casos severos. A oxitetraciclina é ativamente secretada pelas glândulas lacrimais, mantendo concentração bactericida na superfície ocular por mais de 48 horas.
  • Opção B: Florfenicol (300 mg/mL):
    • Dose: 20 mg/kg IM (duas doses com intervalo de 48h) ou 40 mg/kg por via subcutânea em dose única;
    • Apresenta excelente penetração no tecido corneano e combate cepas de Moraxella resistentes às tetraciclinas.

2. Terapia Tópica e Lavagem Ocular

  • Limpeza Prévia com Soro Fisiológico: Antes de aplicar qualquer pomada ou colírio, lave abundantemente o olho com soro fisiológico estéril a 0,9% para remover pus, crostas ressecadas e poeira acumulada. Nunca utilize substâncias caseiras irritantes, como açúcar cristal, sal, querosene ou pó de fumo, que apenas queimam a córnea e provocam a perfuração imediata do olho!
  • Pomadas Oftálmicas com Antibiótico: Pomadas à base de cloranfenicol, tobramicina ou sulfacetamida aplicadas 2 a 3 vezes ao dia no fundo do saco conjuntival.
  • Atenção aos Corticoides: Se houver úlcera aberta na córnea, o uso de colírios contendo corticoides (dexametasona, hidrocortisona) é TERMINANTEMENTE PROIBIDO, pois os esteroides inibem a regeneração do colágeno e aceleram a perfuração do olho. Corticoides tópicos só podem ser utilizados na fase 1 ou 2 quando não houver cratera ulcerativa ativa.

3. Injeção Subconjuntival Bulbar (Casos Avançados de Difícil Controle)

Em animais de alto valor zootécnico ou com lesões avançadas no estágio 3, o médico veterinário pode realizar uma injeção subconjuntival com agulha fina (calibre 25×7) na conjuntiva bulbar superior:

  • Aplicação de 1,0 a 1,5 mL de penicilina procaína associada a 0,2 mL de dexametasona (apenas se a córnea não estiver perfurada), criando um reservatório local de liberação lenta.

4. Oclusão Ocular e Tarsorrafia: Proteção Mecânica contra a Luz

A luz solar e o vento contínuo são extremamente dolorosos para a córnea inflamada e retardam a cicatrização:

  1. Colocação de Tampão Ocular (“Patch”): Colar um pedaço de pano ou tela protetora sobre o olho doente fixado com cola de tecido na testa e bochecha do animal. O tampão protege contra o sol, poeira e moscas, caindo naturalmente após 7 a 10 dias de cicatrização;
  2. Tarsorrafia Temporária: Procedimento cirúrgico simples realizado pelo veterinário sob anestesia local, suturando as pálpebras superior e inferior com fio inabsorvível para manter o olho fechado por 10 a 14 dias, servindo como um “curativo biológico natural”.

5. Manejo Sanitário de Isolamento: O Piquete-Hospital

O erro fatal na fazenda é medicar o bezerro no tronco e devolvê-lo imediatamente ao mesmo piquete com os outros animais sadios. As moscas continuarão pousando no olho purulento e espalhando a bactéria para todo o rebanho:

Protocolo de Quarentena e Isolamento:

  • Apartação Imediata: Todo animal diagnosticado deve ser transferido imediatamente para um Piquete-Hospital ou Baia de Quarentena afastada do lote principal;
  • Sombra Abundante e Conforto: O piquete deve possuir sombra natural densa ou galpão coberto para aliviar a fotofobia. Cochos de água e ração devem ser posicionados próximos à área sombreada para que os animais com visão reduzida consigam beber e se alimentar sem esforço, integrando-se ao manejo de creep feeding de bezerros;
  • Controle Químico dos Vetores (Moscas): Aplicação de inseticidas pour-on (piretroides e organofosforados) no dorso de todo o rebanho e uso de brincos mosquicidas impregnados com inseticida nas orelhas durante a estação crítica;
  • Desinfecção de Cochos e Bebedouros: Limpeza semanal dos cochos com soluções à base de cloro ou amônia quaternária para eliminar secreções lacrimais depositadas nas bordas.

A vacinação preventiva anual contra ceratoconjuntivite bacteriana associada ao calendário vacinal sanitário completo de bezerros e às medidas oficiais do PNCEBT descritas nas diferenças entre as vacinas B19 e RB51 contra brucelose confere a proteção necessária para blindar o rebanho.


Perguntas Frequentes sobre Ceratoconjuntivite Bovina (FAQ)

Posso aplicar açúcar ou pó de vidro no olho branco do boi para “limpar”?

Nunca! Essa é uma prática popular extremamente perigosa e cruel. Colocar açúcar cristal, sal grosso, pó de café ou produtos corrosivos no olho do animal provoca queimadura química e abrasão mecânica imediata na córnea já fragilizada pela bactéria, levando quase invariavelmente ao estouro (perfuração) do olho e à cegueira irreversível. O único líquido que deve ser usado para limpar o olho é soro fisiológico estéril a 0,9%, seguido de medicação prescrita pelo médico veterinário.

A ceratoconjuntivite pode cegar o boi para sempre?

Sim. Se a doença atingir os estágios 3 ou 4 (úlcera profunda com perfuração e saída do humor aquoso), a perda anatômica da visão será permanente e irreversível. No entanto, se o animal for tratado no início (fases 1 e 2 com lacrimejamento e opacidade inicial), a recuperação da visão é completa em mais de 90% dos casos, restando apenas uma pequena névoa cicatricial que não prejudica a vida produtiva do animal.

A ceratoconjuntivite bovina é transmissível para seres humanos?

A bactéria Moraxella bovis é espécie-específica de ruminantes e não infecta o ser humano em condições normais de manejo. Contudo, outras bactérias oportunistas secundárias presentes no pus ocular podem causar infecções e conjuntivites bacterianas em vaqueiros e tratadores. Recomenda-se o uso de luvas descartáveis e lavagem minuciosa das mãos após examinar e medicar animais doentes.


Sobre o Especialista

Dr. João Silva (Médico Veterinário, CRMV-GO, Especialista em Clínica Médica de Ruminantes e Oftalmologia Veterinária) atua há mais de 20 anos na assistência técnica a fazendas de cria, recria e confinamentos intensivos nos estados de Goiás, Tocantins e Mato Grosso. Especialista em sanidade de rebanhos de corte e prevenção de surtos infectocontagiosos, assina a editoria de Saúde Animal do Jornal Campo Soberano.

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