Cotação 22 de janeiro de 2024 9 min de leitura

Fazenda de cana-de-açúcar em MG é palco de morte e trabalho escravo

Operação resgata escravos em canaviais onde, semanas antes, um trabalhador havia morrido por falta de equipamentos de segurança.

Único provedor da casa, André [nome fictício] sentiu-se obrigado a deixar a mulher e as duas filhas na cidade onde moravam, no interior do Maranhão, e trabalhar no plantio de cana-de-açúcar a mais de 2.500 quilômetros de distância. Ouviu do responsável pela contratação que trabalharia três meses em fazendas em Minas Gerais e que não teria que pagar passagem aérea, hospedagem e alimentação. O que ele não sabia é que essa seria sua certidão de óbito.

André e outros 18 homens foram submetidos a trabalho em condições análogas à escravidão em fazendas arrendadas pela Usina Coruripe – gigante do setor sucroenergético e fornecedora de açúcar para as multinacionais Coca-Cola e Louis Dreyfus Company (LDC) e etanol aos postos Ipiranga. A estrutura era tão precária que não havia botas para os trabalhadores. André machucou o pé enquanto usava um par que havia encontrado no lixo e, sem conseguir tratamento, acabou morrendo de choque séptico causado pela infecção.

O trabalhador rural morreu no dia 4 de abril, a caminho de um hospital em São Luís (MA), duas semanas depois que sua esposa lhe enviou dinheiro para retornar ao seu estado natal para tratar o ferimento. “Até hoje não consigo acreditar. Parece que ele está lá fora, viajando. Foi muito rápido, muito rápido”, conta a emocionada viúva, que preferiu não ser identificada. Ela conta que, mesmo sabendo da morte da trabalhadora, os responsáveis ​​pela contratação do marido não pagaram as despesas do funeral, nem entraram em contato com a família.

Coruripe e produtores rurais responsáveis ​​pelas plantações nas fazendas arrendadas à usina foram multados por trabalho análogo à escravidão e tráfico de pessoas. Eles foram questionados pela Repórter Brasil sobre o caso, mas não responderam se prestariam alguma assistência à família. Em 23 de agosto, foi realizada uma audiência de conciliação entre a empresa e os representantes da família.

“Esses trabalhadores vêm de uma situação de miséria, para tentar uma remuneração mais digna e acabam se sujeitando [a essas condições]. Mas isso não é voluntário. É uma forma de organização do trabalho que os submete a essa condição”, diz o fiscal do trabalho Humberto Camasmie, que coordenou a operação de fiscalização nas duas fazendas.

Promessas falsas

De acordo com relatórios de fiscalização do Ministério do Trabalho e Previdência Social, aos quais a Repórter Brasil teve acesso, a saga dos trabalhadores começou em 18 de fevereiro, quando eles deixaram o Maranhão, sob falsas promessas. A primeira a ser quebrada foi em relação à passagem e alimentação, pois tiveram que arcar com todos os custos da viagem de três dias.

Quando chegaram ao quartel, perceberam que estavam em apuros. Uma delas foi em Igarapava (SP), a 150 km das fazendas, localizadas nas cidades de Veríssimo e Campo Florido (MG). Os dormitórios eram extremamente precários, colocando em risco a saúde e a segurança dos trabalhadores. evaldo [nome fictício]que saiu do trabalho antes da fiscalização, conta que ele e o cunhado André passaram um mês dormindo no chão até encontrarem um colchão no lixo.

Os trabalhadores relataram ao relatório que ganhavam entre R$ 30 e R$ 40 por hectare plantado – valor insuficiente para sobreviver. “Comíamos ovos, salsicha, o mais barato que tínhamos. Não dava para comprar carne, essas coisas mais caras”, diz Evaldo. De acordo com os relatos, os custos com equipamentos de segurança, ferramentas, aluguel, água, luz e alimentação também foram pagos pelos trabalhadores, contrariando o prometido.

A jornada de trabalho era cansativa. Os trabalhadores tinham que pegar os ônibus fretados às 6h – e só voltavam para o alojamento às 19h, quando não era mais possível ver a plantação. Como ganhavam por renda, quase não tinham descanso. “Só paramos para almoçar quando já estávamos com fome”, diz Roberto [nome fictício], amigo de Evaldo. A rotina cansativa foi estimulada pelos recrutadores. Segundo o Ministério do Trabalho, eles recebiam 30% da produção de cada trabalhador.

Entre abril e maio, os administradores dos imóveis assinaram Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT), comprometendo-se a pagar verbas rescisórias, ressarcir despesas de transporte, além de cumprir a adequação de mão de obra e hospedagem. Ao todo, as duas fazendas terão que pagar cerca de R$ 400 mil em danos morais e coletivos.

Operações suspensas

Com cinco unidades distribuídas em Alagoas e Minas Gerais, Coruripe está na 58ª posição do ranking Forbes Agro 100, que lista as maiores empresas do agronegócio brasileiro. Em seu site, a empresa informa que fornece açúcar cristal para a Coca-Cola Brasil há mais de 20 anos.

Outra gigante que mantém relações comerciais com a Coruripe é a Ipiranga, uma das maiores redes de distribuição de combustíveis do Brasil. Os contratos firmados entre as duas empresas para venda de etanol, com vencimento em 2022 e 2023, somam mais de R$ 100 milhões.

A fábrica também tem investido no mercado internacional, sendo os Estados Unidos o principal destino das exportações. Nos últimos dois anos, a empresa vendeu mais de 25 mil toneladas para o Grupo ASR, empresa americana do setor sucroenergético. A segunda maior compradora no período foi a francesa Louis Dreyfus Company (LDC), que adquiriu 12 mil toneladas de açúcar de Coruripe.

Questionado pela Repórter Brasil sobre as ações a serem tomadas após o caso de trabalho escravo envolvendo fornecedores exclusivos, Coruripe disse que “está tomando as medidas cabíveis”, mas não quis detalhar as medidas adotadas. A fábrica sublinhou que “repudia todas as práticas que, direta ou indiretamente, desrespeitem quaisquer direitos dos trabalhadores” e que “na história de quase 100 anos, […] nunca houve uma situação como a relatada.”

A Coca-Cola afirmou que exige que seus fornecedores adotem “práticas responsáveis ​​no local de trabalho”, alinhadas com sua política de direitos humanos, seus princípios de conduta para o fornecedor. A multinacional, no entanto, não respondeu sobre quais ações serão tomadas no caso Coruripe ou quais unidades do produtor de açúcar abastecem a empresa.

A Ipiranga, após contato com a Repórter Brasil, suspendeu as operações com a Usina Coruripe “até que os fatos sejam esclarecidos”. A rede afirmou que está comprometida com a promoção dos direitos humanos, que é signatária do pacto contra o trabalho escravo e que repudia “toda e qualquer forma de exploração do trabalho”.

A LDC disse que “leva as questões de sustentabilidade muito a sério, sempre com o objetivo de operar com os mais altos padrões possíveis e esperando padrões semelhantes dos fornecedores”. A multinacional francesa disse que tem como padrão entrar em contato com fornecedores e pedir respostas sobre denúncias de violações de direitos humanos repassadas à empresa, “trabalhando com eles sempre que possível para obter reparação e, em casos de descumprimento continuado, tomando decisões para remover a partir de listas de fornecedores aprovados”.

Por e-mail, a ASR informou que, após questionamentos da Repórter Brasil, entrou em contato com a Usina Coruripe, que disse ter recebido as denúncias de trabalho escravo há meses e desde então rescindiu contratos com fornecedores. Para a ASR Sugar, a Coruripe também informou que criou uma área específica para analisar a conformidade trabalhista de seus fornecedores independentes de cana-de-açúcar. A empresa americana também afirmou ser abastecida exclusivamente pela fábrica de Coruripe, em Alagoas.

“Uso manhoso”

Segundo integrantes da força-tarefa, a Usina Coruripe é a locatária das terras onde foram plantadas as mudas de cana-de-açúcar. No entanto, ao invés de a própria empresa produzir na área arrendada, opta por firmar dois contratos: um de transferência de responsabilidade pelo plantio – que permite que outro produtor rural produza cana no local – e outro de compra e venda exclusiva com aquele produtor. “É uma tentativa de desresponsabilização”, explica o auditor-fiscal Camasmie.

“O que aconteceu não foi uma terceirização do processo produtivo da empresa, mas o uso astuto do contrato de parceria rural”, afirma no relatório o auditor-fiscal Luis Fernando Duque de Sousa.

A usina afirmou que foi “multa equivocadamente”, fato que, segundo a empresa, já foi esclarecido ao Ministério Público do Trabalho. “Em vista disso, no momento da fiscalização, foi formalizado um acordo entre o MTE [Ministério do Trabalho e Previdência], MPT e fornecedores de cana-de-açúcar, responsáveis ​​pelos atos praticados. Nesse pacto, em hipótese alguma foi atribuída à Usina Coruripe qualquer obrigação de arcar com as consequências do referido comportamento, nem mesmo na condição de responsável subsidiária”.

Apesar da afirmação da usina, o Ministério do Trabalho multou a empresa por considerá-la responsável pelos trabalhadores. Caso seja condenada administrativamente em duas instâncias, a empresa será colocada na lista negra do trabalho escravo. Em 2021, o cultivo da cana-de-açúcar estava entre as cinco atividades rurais com maior número de trabalhadores resgatados, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Previdência Social divulgado no início deste ano.


Nota de esclarecimento

A seguir, leia (na íntegra e sem edição) a nota de esclarecimento enviada à NovaCana pela Usina Coruripe.

Sobre o relatório produzido pelo site Repórter Brasil, a Usina Coruripe informa que não há terceirização de serviços. O que havia, na verdade, era uma relação comercial com os citados produtores rurais estritamente para compra de matéria-prima (cana), conforme documentação apresentada às autoridades. Os contratos legalmente registrados com esses fornecedores foram rescindidos assim que a empresa tomou conhecimento da situação relatada.

A Usina Coruripe ressalta que adota um rígido padrão de conduta em relação a todos os fornecedores e não aceita qualquer tipo de desvio ético ou legal. A empresa lamenta o ocorrido com os citados empregados contratados por produtores rurais e ressalta que repudia todas as práticas que, direta ou indiretamente, desrespeitem quaisquer direitos trabalhistas.

A empresa também tomou as medidas cabíveis para dar o tratamento jurídico que o caso exige, seguindo rigorosamente os termos do acordo firmado entre os produtores rurais e o Ministério Público do Trabalho em 06 de maio de 2022. Nesse acordo, os fornecedores de cana-de-açúcar foram integralmente responsável, na forma da lei, pelo registro da CTPS dos trabalhadores, pagamento de verbas rescisórias, indenização por danos morais pagos diretamente aos trabalhadores, pagamento de hospedagem e despesas de retorno ao local de origem.

A Usina Coruripe, com quase 100 anos de atividades e referência no setor sucroenergético nacional, nunca deixou de seguir, com extrema severidade, os princípios de excelência e respeito às regras na defesa de seu conceito comercial, essencial para obter o desenvolvimento planejado. . Atualmente, a Coruripe emprega diretamente mais de 8 mil funcionários em quatro unidades produtivas em Minas Gerais (Iturama, Campo Florido, Carneirinho e Limeira do Oeste) e uma em Alagoas (Coruripe), além de um terminal ferroviário próprio em Iturama.

Fonte: Repórter Brasil

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