Pecuária 8 de agosto de 2026 12 min de leitura

Cetose em vacas leiteiras: 5 decisões de controle no período de transição

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Tipo: Evergreen

Resumo Rápido

  • O maior risco de cetose ocorre, em geral, nas três semanas anteriores e posteriores ao parto.
  • Balanço energético negativo, baixa ingestão e mobilização de gordura elevam o beta-hidroxibutirato, ou BHB.
  • Em muitos programas, BHB a partir de 1,2 mmol/L sugere cetose subclínica, mas o protocolo deve seguir laboratório e rebanho.
  • Propilenoglicol pode ser usado em vacas alertas e sem complicações graves, sempre com orientação veterinária e administração segura.
  • Prevenção depende de dieta, escore corporal, conforto, monitoramento e investigação de metrite, mastite, hipocalcemia e deslocamento de abomaso.

A cetose é um dos principais desafios metabólicos do período de transição porque pode começar de forma discreta e comprometer produção, fertilidade, imunidade e saúde geral antes que os sinais clínicos sejam facilmente percebidos. O problema está relacionado ao balanço energético negativo: próximo ao parto, a vaca pode reduzir o consumo de matéria seca justamente quando a exigência de nutrientes aumenta. Para compensar a diferença entre energia ingerida e energia utilizada, o organismo mobiliza gordura corporal. O fígado transforma parte desses compostos em corpos cetônicos, entre eles o beta-hidroxibutirato, conhecido como BHB.

A prevenção não deve ser reduzida à aplicação de glicose depois que a vaca para de comer. O controle clínico exige um programa de rebanho, com observação das vacas, avaliação do escore de condição corporal, qualidade da dieta, conforto, rotina de ordenha e investigação das doenças que diminuem a ingestão. Vacas de alta produção, multíparas, com escore acima de 3,5 no pré-parto, gestação gemelar, retenção de placenta, metrite, deslocamento de abomaso ou histórico de cetose merecem atenção ampliada.

O diagnóstico deve combinar sinais, histórico e medição. Uma vaca pode não apresentar odor cetônico ou depressão intensa e ainda assim estar em cetose subclínica. Por esse motivo, o BHB sanguíneo é uma ferramenta importante para identificar animais em risco e medir a resposta ao protocolo adotado. O resultado precisa ser interpretado por médico-veterinário, considerando o laboratório, o momento da coleta e os demais achados clínicos.

Por que o período de transição concentra o risco

Manejo e desenvolvimento técnico no campo.

As três semanas anteriores e as três semanas posteriores ao parto concentram mudanças profundas no metabolismo. Antes do parto, o espaço abdominal pode ser alterado pelo crescimento do feto e a palatabilidade da dieta pode diminuir. Depois do parto, a produção de leite aumenta rapidamente, mas o consumo de matéria seca demora a acompanhar essa demanda. A vaca entra em déficit energético e mobiliza reservas corporais.

O escore de condição corporal tem papel importante. Animais excessivamente gordos no pré-parto podem apresentar maior queda de consumo e maior mobilização de gordura. Isso não significa que a solução seja deixar as vacas magras, mas sim trabalhar com escore adequado e reduzir variações bruscas. A avaliação deve ser feita de maneira padronizada, acompanhando a evolução do animal e não apenas um número isolado.

A dieta do período seco precisa fornecer nutrientes sem estimular ganho excessivo de condição. No pré-parto, a equipe deve observar seleção no cocho, sobras, uniformidade da mistura, acesso de todas as vacas ao alimento e disponibilidade de água. Competição, calor, lama, piso escorregadio e superlotação reduzem o consumo e aumentam o risco metabólico.

Após o parto, a adaptação alimentar precisa ser gradual. A introdução de maior densidade energética sem adequada fibra e sem rotina estável pode agravar a instabilidade ruminal. A dieta deve ser formulada para o grupo e ajustada conforme produção, consumo, escore e composição do leite. Nenhum suplemento isolado corrige uma dieta mal misturada ou um ambiente que impede a vaca de comer.

A transição também deve incluir rotina de observação. Vacas recém-paridas precisam ser avaliadas quanto a apetite, ruminação, temperatura quando indicado, produção, fezes, locomoção, hidratação e secreções uterinas. A identificação precoce permite investigar a causa da queda de consumo antes que a cetose se agrave.

Como reconhecer sinais subclínicos e clínicos

A cetose subclínica pode não produzir sinais evidentes. A equipe pode notar queda de produção sem causa aparente, menor seleção e ingestão de alimento, redução da ruminação, fezes mais firmes ou variáveis e perda de escore corporal. O aumento da incidência de metrite e deslocamento de abomaso também pode aparecer como alerta de que o manejo de transição precisa ser revisto.

Na forma clínica, podem surgir anorexia seletiva, apatia, desidratação discreta, hálito com odor cetônico, fezes escassas e olhar encovado. Alguns animais apresentam sinais nervosos, como lamber objetos, mastigar madeira, pressionar a cabeça, caminhar de maneira irregular ou demonstrar hiperexcitabilidade. Esses sinais não devem ser interpretados isoladamente, pois outras doenças podem produzir alterações semelhantes.

A confirmação preferencial utiliza BHB sanguíneo. Em muitos programas, valores a partir de 1,2 mmol/L indicam cetose subclínica. Concentrações iguais ou superiores a 3,0 mmol/L, associadas a sinais clínicos, exigem avaliação imediata de doenças concomitantes. Os pontos de corte podem variar conforme laboratório e protocolo, por isso o rebanho deve adotar uma referência padronizada com orientação veterinária.

A coleta precisa ser organizada. Registrar identificação da vaca, dias em relação ao parto, produção, escore corporal e resultado de BHB permite observar padrões. Se vários animais do mesmo lote apresentam alteração, a investigação deve ultrapassar o tratamento individual. É necessário revisar dieta, acesso ao cocho, qualidade da silagem, conforto, doenças no pós-parto e treinamento da equipe.

O teste não substitui o exame clínico. Uma vaca com BHB elevado pode ter metrite, mastite, hipocalcemia ou deslocamento de abomaso. Se essas condições não forem tratadas, a resposta ao controle da cetose será limitada. A equipe deve comunicar rapidamente alterações de apetite, fezes, ruminação e comportamento.

Tratamento exige diagnóstico e segurança

Para vacas alertas, hidratadas e sem complicações graves, o propilenoglicol por via oral é utilizado como precursor glicogênico. O material técnico da rodada cita, como referência, geralmente 300 mL uma vez ao dia durante três a cinco dias. O protocolo deve ser definido pelo médico-veterinário e ajustado conforme resposta, BHB, ingestão e presença de doenças associadas.

A administração oral deve ser segura. O produto não deve ser lançado rapidamente na boca de um animal deprimido ou com dificuldade de deglutição, pois existe risco de aspiração. A equipe precisa receber treinamento e respeitar o método estabelecido pelo responsável técnico. Se a vaca estiver muito deprimida, desidratada ou sem reflexo adequado, a avaliação clínica deve preceder qualquer administração.

A dextrose intravenosa pode causar melhora rápida e transitória da glicemia, mas não substitui o fornecimento de um precursor glicogênico nem corrige a causa do balanço energético negativo. Ela deve ser reservada para situações selecionadas, como hipoglicemia ou depressão clínica, e aplicada lentamente por profissional habilitado. Há riscos de flebite, hiperglicemia de rebote e recidiva quando a origem do problema permanece.

A vitamina B12 e a cianocobalamina podem ser utilizadas como suporte em situações específicas, sobretudo quando há suspeita de comprometimento da utilização de propionato. A indicação não deve ser automática. O tratamento precisa considerar o quadro completo, a dieta, o histórico do lote, o resultado dos exames e a presença de enfermidades que reduzem consumo.

A reavaliação é indispensável. A vaca deve ser acompanhada quanto a ingestão, ruminação, produção, hidratação, temperatura quando indicada e evolução do BHB. Falta de resposta exige nova avaliação, e não simplesmente repetição indefinida do mesmo produto.

Investigar doenças que mantêm a vaca em déficit

A cetose pode ser consequência ou agravante de outras enfermidades. Metrite, mastite, hipocalcemia e deslocamento de abomaso reduzem o consumo e aumentam o desequilíbrio energético. Retenção de placenta, gestação gemelar e parto difícil também elevam a necessidade de monitoramento.

Na metrite, a equipe deve observar secreção uterina fétida, febre, apatia e queda de ingestão. Na mastite, alterações no úbere, no leite e no comportamento durante a ordenha precisam ser registradas. A hipocalcemia pode comprometer motilidade, postura e ingestão. O deslocamento de abomaso pode aparecer com redução de consumo, queda de produção e alterações digestivas. Cada condição exige diagnóstico e tratamento próprios.

A fazenda deve estabelecer critérios claros para chamar o veterinário. Uma vaca que não come, apresenta depressão intensa, ausência de fezes, rúmen hipomotil, desidratação ou piora após o tratamento inicial não deve permanecer apenas em observação. A rapidez da intervenção influencia o prognóstico e reduz perdas.

Os registros ajudam a identificar padrões. Anote data do parto, escore, ordem de lactação, doenças, tratamentos, BHB, produção e descarte. Com esses dados, é possível calcular prevalência, recidiva, mortalidade, descarte, resposta ao tratamento e impacto reprodutivo. O objetivo é descobrir onde o programa falha.

A equipe também deve revisar os protocolos de medicamentos. Dose, via, intervalo e período de carência precisam seguir a bula e a orientação do responsável técnico. O uso sem diagnóstico pode atrasar a identificação da doença principal e aumentar custos.

Prevenção começa antes do parto

A prevenção depende de manejo de lotes. Separar vacas secas, pré-parto e recém-paridas permite ajustar dieta e observação. O agrupamento deve evitar competição excessiva e garantir espaço de cocho, água limpa e conforto. A rotina de trato deve ser estável, com controle de aquecimento e descarte de silagem deteriorada.

A análise dos alimentos é fundamental. A matéria seca da silagem pode variar, alterando a quantidade real de nutrientes fornecida. A dieta deve ser recalculada quando há mudança de lote, umidade ou qualidade da forragem. A mistura precisa permanecer homogênea para evitar que as vacas selecionem partículas e consumam uma dieta diferente da formulada.

A condição corporal deve ser acompanhada no secamento, no pré-parto e no pós-parto. Perdas rápidas depois do parto são um alerta para investigar consumo e energia. A seleção por vacas muito gordas no pré-parto ajuda a direcionar manejo, mas a prevenção não pode depender somente do escore.

O conforto térmico e o acesso ao cocho também importam. Em situações de calor, a vaca reduz a ingestão e altera o padrão de alimentação. Sombra, ventilação, água e menor competição ajudam a preservar o consumo. O piso deve permitir locomoção segura, pois dor e dificuldade de acesso reduzem a frequência ao cocho.

A meta do programa não é apenas reduzir casos clínicos. É diminuir a prevalência subclínica, melhorar produção, fertilidade, imunidade e longevidade. Para isso, o acompanhamento precisa ser contínuo e baseado em indicadores do próprio rebanho.

Visão do Especialista Sênior

Na minha avaliação, o erro mais comum é tratar a cetose somente quando o hálito muda ou a vaca fica deprimida. Eu prefiro trabalhar com prevenção e monitoramento, porque a forma subclínica já pode comprometer o desempenho. Minha primeira preocupação é o consumo: observo a vaca, a sobra, a ruminação, a competição e a qualidade da dieta antes de escolher qualquer intervenção.

Eu considero o BHB uma ferramenta de decisão, não um substituto do exame clínico. Quando encontro resultado elevado, procuro metrite, mastite, hipocalcemia, deslocamento de abomaso e falhas de manejo. Também reforço que propilenoglicol e dextrose têm funções diferentes. O protocolo deve ser definido por médico-veterinário, com administração segura, respeito à bula e reavaliação documentada.

💬 Opinião do Canal – Análise Global:

A eficiência leiteira global depende cada vez mais da capacidade de reduzir perdas metabólicas e manter vacas saudáveis no início da lactação. A cetose afeta produção e reprodução, por isso o controle do período de transição protege a eficiência do sistema. O princípio é universal: alimentação, conforto, diagnóstico e registros precisam funcionar juntos.

💬 Opinião do Canal – Análise Nacional:

No Brasil, rebanhos de diferentes escalas podem aplicar o mesmo fundamento de controle: observar, medir, registrar e agir rapidamente. A adaptação deve considerar clima, sistema de alojamento, qualidade das forragens e treinamento da equipe. O melhor protocolo é aquele que pode ser executado todos os dias e reavaliado com dados do próprio rebanho.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Pergunta: Qual valor de BHB sugere cetose subclínica?

Resposta: Em muitos protocolos, BHB sanguíneo a partir de 1,2 mmol/L sugere cetose subclínica, mas o ponto de corte deve seguir laboratório e programa do rebanho.

Pergunta: O propilenoglicol substitui a dextrose intravenosa?

Resposta: Não. O propilenoglicol fornece precursor glicogênico por via oral, enquanto a dextrose pode elevar rapidamente a glicemia. A indicação depende do quadro clínico.

Pergunta: Quando a vaca precisa de avaliação urgente?

Resposta: Em depressão intensa, febre, ausência de fezes, rúmen hipomotil, desidratação, secreção uterina fétida, suspeita de mastite, hipocalcemia ou falta de resposta.

Pergunta: Toda vaca com BHB elevado tem apenas cetose?

Resposta: Não. Metrite, mastite, hipocalcemia e deslocamento de abomaso podem coexistir e precisam ser investigados pelo médico-veterinário.

Pergunta: Como reduzir o risco de cetose no rebanho?

Resposta: Mantenha escore adequado, dieta analisada, adaptação alimentar, conforto, acesso ao cocho, água, rotina de observação e monitoramento de vacas de maior risco.

Conclusão & CTA

A cetose deve ser tratada como um problema de metabolismo e gestão do rebanho, não como um episódio isolado. A prevenção começa antes do parto e continua com dieta adequada, conforto, observação, medição de BHB e investigação das doenças que reduzem o consumo. O tratamento precisa ser definido por médico-veterinário, com segurança e reavaliação.

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Fonte

Embrapa | Ministério da Agricultura e Pecuária

Sobre o Especialista

Dra. Helena Duarte Ribeiro — Médica-veterinária, especialista em clínica de bovinos leiteiros, metabolismo de vacas no período de transição e programas de saúde de rebanho.

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