Suplementos e substitutos de colostro para bezerras leiteiras

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Com a iminente liberação da utilização de suplementos e substitutos de colostro no Brasil, muitos questionamentos têm surgido acerca da eficiência desses produtos, bem como da relação custo X benefício dos memos. O objetivo desse artigo é discutir alguns desses pontos, fornecendo subsídio para técnicos e produtores decidirem sobre a utilização dessa nova ferramenta de manejo.

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Introdução

Dentre todos os cuidados dispensados às bezerras recém-nascidas, a colostragem é determinante para a saúde e sobrevivência das mesmas, uma vez que a placenta dos bovinos não permite a passagem das imunoglobulinas durante a gestação, fazendo com que as crias, ao nascer, não tenham proteção contra os agentes que causam doenças (agamaglobulinêmicos). Dessa forma, as bezerras são depen-dentes da ingestão rápida do colostro após o nascimento para a adequada transferência da imunidade passiva (TIP).

No entanto, pouco cuidado ainda é dedicado ao fornecimento de colostro e muitos produtores continuam a ter prejuízos significativos por falhas na colostragem, aumentando, consequentemente, os custos, as doenças e a taxa de mortalidade das bezerras.

O sucesso da colostragem depende da qualidade (quantidade de imunoglobulinas presente), do volume ingerido e do manejo do fornecimento do colostro (horas de vida à primeira mamada, estresse, método de fornecimento e qualidade sanitária do colostro), e pode ser avaliado pela concentração sérica de IgG, que deve ser igual ou superior a 10 mg de IgG/mL após as primeiras 24 h de vida. Concentrações séricas inferiores a 10 mg de IgG/mL nas primeiras 24h de vida correlacionam-se diretamente a maiores índices de mortalidade e morbidade, e também ao pior desempenho do animal a longo prazo.

Nos Estados Unidos, em levantamento feito em 1993, mais de 40% das bezerras leiteiras apresentavam falha na transferência de imunidade passiva, não alcançando concentração de IgG sérica igual ou superior 10 mg/mL entre 24 e 48 horas de vida (Figura 1).

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Na literatura nacional ainda há poucos dados descrevendo a incidência de FTIP, o que nos leva a acreditar que, provavelmente, no Brasil os números sejam semelhantes aos dados americanos.

Essas falhas estão relacionadas não só ao manejo, mas também a enorme variabilidade na qualidade dos colostros. Em 239 amostras de colostro de 12 propriedades em Winsconsin e

Minnesota (EUA), observou-se média de concentração de IgG de 76,7 ± 30,0 g/L e variação de 9,4 a 185,7 g/L. Essa variabilidade na qualidade foi a base para a recomendação de fornecimento de pelo menos 3L de colostro o mais rápido possível após o nascimento para assegurar a adequada ingestão de IgG no início da vida. Com a média de concentração relatada nesse estudo, a quantidade média em gramas de IgG a serem ingeridas, para eficiente transferência da imunidade passiva, seria 211g.

Para que a colostragem seja bem sucedida é necessário que o produtor forneça às bezerras volume adequado de colostro de boa qualidade dentro das primeiras seis horas de vida. No entanto, a dificuldade em fazer uma colostragem adequada está relacionada a variabilidade na qualidade do colostro (apresentada acima), ao horário de nascimento das bezerras, que normalmente ocorre durante a noite e inicio da manhã, sem acompanhamento do mesmo, e ao fato de bezerras oriundos de partos difíceis nascerem fracas e estressadas, fazendo com que não mamem o colostro rapidamente após o parto. Aliado a isso, podem ocorrer períodos em que o suprimento de colostro fresco ou congelado, de alta qualidade, não seja suficiente para a colostragem de todos os bezerros recém-nascidos. Vale ressaltar aqui que é recomendado o descarte de colostro proveniente de vacas positivas para patógenos como Mycobacterium avium ssp. paratuberculosis, leucose bovina e mastite.

Para contornar esses problemas, pesquisas têm sido conduzidas com o intuito de se produzir substitutos e suplementos de colostro.

Suplemento ou substituto de colostro – Qual a diferença?

Os suplementos de colostro são produtos que fornecem menos de 100g de IgG/dose, sendo destinados apenas para a suplementação do colostro já e-xistente, não sendo recomendados para substituir o mesmo. Por outro lado, os substitutos de colostro contém valores superiores a 100g IgG/dose, além de fornecerem outros nutrientes, como carboidratos, proteína, gordura, vitaminas e minerais exigidos pelo neonato, sendo utilizados como substituto completo do colostro materno.

As fontes de IgG nos suplementos e substitutos de colostro são basicamente derivadas das secreções lácteas (colostro e leite), sangue (soro ou plasma) ou ovos de galinha.

Outra importante diferença entre suplementos e  substitutos de colostro é o custo desses produtos. Os produtos comercia-lizados como suplemento apresentam preços menores que os substitutos, variando entre $5 a $7 por dose e $25 a $30 por dose, respectivamente.

Substitutos de colostro

Para alcançar o sucesso da transferência da imunidade passiva, bezerras de aproximadamente 43 kg, devem consumir o mínimo de 100g de IgG na primeira mamada. Com base nisso, muitas indústrias produ-ziram substitutos de colostro contendo de 100 a 130g de IgG por dose. No entanto, estudos posteriores, concluíram que a simples análise da massa de IgG no produto não resultaria em concentrações adequadas de IgG sérica (iguais ou superiores a 10 mg de IgG/mL em 24 h após o nascimento) e essa falha poderia ser atribuída aos processos de fabricação do produto. Assim, cada produto deve ser avaliado pela sua eficiência, e não apenas pela concentração de IgG.

Em estudo realizado na Universidade de Minnesota em 2009 (Tabela 1), avaliou-se o fornecimento de 100g de IgG, via esofagiana, de um substituto derivado de colostro bovino, que resultou em baixa IgG sérica e altas taxas de FTIP, quando comparado com o uso de 3,8L de colostro materno. No entanto, o fornecimento de duas doses do mesmo substituto (200g de IgG) elevou o nível de IgG sérico e nenhum caso de FTIP foi observado, resultado equivalente ao observado com 3,8L de colostro materno.

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Em outro estudo, animais que receberam quantidades iguais de IgG de colostro materno e

substituto de colostro fornecidos em duas doses (1,5 e 13,5 horas após o nascimento), apresentaram concentrações plasmáticas semelhantes de IgG. Nenhuma diferença foi observada nas ta-xas de morbidade e mortalidade nesse estudo. Apesar dos resultados positivos demonstrados por esse estudo com a utilização de duas doses de substituto de colostro, outros estudos demons-traram que a absorção de maiores quantidades de IgG em uma única dose é superior a absorção da mesma massa de IgG dividida em duas doses.

Em outro estudo realizado para avaliar a eficácia de um produto comercial derivado de plasma bovino, os autores distribuíram os animais em três grupos: o Grupo 1 recebeu um pacote (dose) de substituto de colostro, o Grupo 2 recebeu dois pacotes (dose) do mesmo substituto, e o Grupo 3 recebeu 3L de colostro bovino. Amostras de sangue dos bezerros foram coletadas 24h após o fornecimento, sendo analisadas a IgG sérica e concentração de proteína total (Tabela 2).

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Os bezerros que receberam colostro materno (Grupo 3) apresentaram maiores valores de IgG e proteína total quando comparado aos Grupos 1 e 2. Animais do Grupo 1  apresentaram maior incidência de falha na transfe-rência de imunidade passiva que os animais dos grupos 2 ou 3. Os resultados desse estudo indicam que duas doses do produto derivado de plasma bovino alcançaram adequada concentração IgG sérica, enquanto animais que receberam apenas uma dose do produto tiveram falha significativa na transferência de imunidade passiva.

Assim como no estudo descrito acima, várias outros trabalhos de pesquisa também demonstraram adequada transferência de imunidade passiva com um único fornecimento, desde que maior que a dose mínima de 100g.

Estudos recentes mostraram que a utilização de substitutos de colostro foi uma alternativa eficiente para a colostragem em vários rebanhos leiteiros. Nos Estados Unidos, 497 animais de 12 rebanhos, alimentados com substituto de colostro, foram acompanhados por 54 meses e comparados ao grupo que recebeu colostro verdadeiro. Os animais adultos do grupo que recebeu o substituto não apresentaram diferença quanto à produção de leite/lactação, desempenho na reprodução e risco de abate ou morte quando comparados aos animais do grupo que recebeu colostro. Além disso, as bezerras do grupo que recebeu o substituto apresentaram menor incidência de infecções causadas por Mycobacterium avium ssp. Paratuberculosis que os animais do grupo que recebeu colostro verdadeiro.  Entretanto, um fator que cabe ressaltar é que, mesmo que a maioria dos substitutos e suplementos de colostro seja exposta a passos de processamento para eliminação de patógenos (por exemplo: a irradiação e a pasteurização) há poucos estudos que comprovam a ausência do risco de transmissão de doenças por meio da ingestão dos mesmos.

Vantagens e desvantagens do uso de substitutos de colostro

Como observado nos estudos já realizados, pode-se destacar algumas vantagens do uso de substitutos de colostro, como a determinação da quantidade exata de imunoglobulinas que estão sendo fornecidas e a garantia de melhor qualidade sanitária do produto. Por outro lado, ainda existem questionamentos quanto a capacidade desses produtos em imunizar os bezerros contra microrganismos específicos de certas regiões ou propriedades.

Embora esses produtos co-merciais ainda estejam em fase de liberação para uso no Brasil, um aspecto que já tem causado questionamentos é o custo dos mesmos. No entanto, com a redução de prejuízos e dos gastos com o uso de antibióticos, se for comprovada sua eficiência em reduzir a ocorrência de doenças, é possível que os benefícios desses produtos sejam maiores que o seu valor de mercado.

Apesar de resultados divergentes na literatura científica, novos estudos vêm sendo feitos com o objetivo de melhorar o desempenho dos produtos. Caso a propriedade não tenha banco de colostro adequado, e o manejo de fornecimento do mesmo esteja falho (sem o controle da qualidade e quantidade fornecida), o suplemento de colostro pode ser uma alternativa prática para reduzir as falhas de transferência de imunidade passiva. •

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