Silagem de sorgo na alimentação de vacas leiteiras

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O uso de silagem de sorgo representa uma das principais formas de suplementação de volumosos para o rebanho bovino nacional. Neste artigo, serão abordados os principais aspectos desta forrageira, como seu benefício, os procedimentos adotados para a ensilagem, valor nutritivo, qualidade e uso na alimentação de bovinos leiteiros.

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de leite bovino, cujo valor da produção alcança quase 10% do valor gerado pela produção agropecuária do país. Baseada no uso de pastagens para a alimentação dos rebanhos, a produção leiteira brasileira depende do emprego de estratégias de suplementação alimentar dos animais para manter a estabilidade produtiva ao longo do ano.

O uso de silagem de sorgo representa uma das principais formas de suplementação de volumosos para o rebanho bovino nacional. Sendo o custo com a alimentação, tradicionalmente, o principal custo da produção de leite no país, o fornecimento de silagens de melhor valor nutritivo, dentre eles, a de sorgo, pode contribuir para a redução dos custos com a alimentação dos animais.

No entanto, o valor nutritivo de uma silagem está diretamente relacionado à composição e à digestibilidade da forrageira original, e a ensilagem tem como objetivo reter o máximo de nutrientes digestíveis da forragem original na sua forma conservada. Para tal, a ocorrência de um processo de fermentação eficiente é fundamental.

Como o foco aqui é a produção de leite, neste artigo será abordada a importância do uso de silagem e os principais aspectos envolvidos, como seu benefício, os procedimentos adotados para a ensilagem, seu valor nutritivo, qualidade e uso na alimentação de bovinos leiteiros.

Benefícios da conservação da forragem sob forma de ensilagem

  • Permite a alimentação exclusiva, ou como complemento de volumosos, para os bovinos de leite na época de escassez de alimentos.
  • Permite a manutenção de maior número de animais ou unidades animais (UA = 450 Kg peso vivo) por unidade de terra.
  • Permite a manutenção ou maximização da produção (carne ou leite), principalmente, durante a escassez de alimentos.
  • Permite armazenar grande quantidade de alimento em espaço reduzido.
  • Permite o manejo racional das pastagens, como de armazenar o excesso de forragem produzida na época de maior crescimento das forrageiras.
  • Permite maior potencial de produção de matéria seca (MS) e de energia por unidade de área.

Dados do censo agropecuário de 2006 (SIDRA/IBGE, 2012) destacaram que o milho utilizado para produção de forragem contribuiu com mais de 50% da produção de lavouras temporárias com fins forrageiros no Brasil. Já no estado de Minas Gerais, estado que foi responsável por mais de um quarto da produção forrageira em lavouras temporárias no país, apresentou produções de 327.014 toneladas de forrageiras empregadas para corte, 2.782.375 toneladas de cana-de-açúcar forrageira, 3.000.492 toneladas de milho forrageiro e 580.252 toneladas de sorgo forrageiro (Figura 1). Desta forma, os dados oficiais apontam que a ensilagem, seguramente sugerida pelos valores das produções de milho e sorgo forrageiro, representa a principal estratégia adotada para o fornecimento de volumoso suplementar no Brasil e em Minas Gerais.

 Processo de ensilagem

A ensilagem de forrageiras é um processo biológico de conservação de alimentos volumosos, cujo objetivo é maximizar a retenção dos nutrientes presentes na forragem original pela sua conservação em meio ácido. A ensilagem compreende o armazenamento da forragem úmida, ou parcialmente seca, em ambiente fechado e compactado, com os objetivos de restringir a respiração celular, que continua ocorrendo após o corte da forrageira, e de fornecer condições adequadas para o desenvolvimento de bactérias acido-láticas (BAL) produtoras de ácido lático. Neste processo, o ácido lático e outros ácidos orgânicos produzidos pela fermentação de substratos presentes na planta reduzem o pH da massa ensilada, inibindo a ação de microrganismos capazes de promover a sua deterioração.

Na maioria das situações, as etapas necessárias para se produzir silagem abrangem os procedimentos de colheita e trituração da forrageira, o transporte da forragem picada até o silo, a descarga e a distribuição da forragem no silo, a compactação da forragem e a vedação do silo. O sucesso do processo de ensilagem, ou seja, a maximização na retenção dos nutrientes disponíveis na forragem original, depende da execução adequada dos procedimentos em cada etapa.

Fase I – Inicia-se com o corte da forrageira e prossegue até que a forragem picada seja depositada no silo, compactada, vedada e o oxigênio disponível seja eliminado. Esta fase é caracterizada, fundamentalmente, pelo processo de respiração das células vegetais, levando à produção de CO2 e calor com perda de parte da energia contida na forragem original. Adicionalmente, também ocorrem reações mediadas por enzimas com a liberação de nitrogênio não proteico, que podem reduzir a qualidade da fração proteica no volumoso conservado.

Fase II – Começa quando o oxigênio da massa ensilada é esgotado. Nesta fase ocorre a redução do pH, devido ao acúmulo de ácidos orgânicos gerados pela ação de bactérias anaeróbicas sobre os carboidratos solúveis.

Fase III (estabilidade) – É marcada pela redução da atividade microbiana e pela estabilização do pH da massa ensilada.

Avalição do valor nutritivo

Vacas leiteiras alimentadas com forragem de alto valor nutritivo produzem mais leite com menor necessidade de suplementação com alimentos concentrados. A composição química dos alimentos, em termos dos seus componentes nutritivos, associada à capacidade dos animais em utilizá-los, define o seu valor nutritivo. Portanto, a descrição do valor nutritivo das silagens requer o conhecimento da sua composição bromatológica associada ao índice de digestibilidade das suas frações nutritivas.

Visando a avaliação do valor nutritivo, as análises de composição química das forrageiras devem abranger, pelo menos, a determinação dos teores de matéria seca, de proteína bruta e de componentes da parede celular – fibra insolúvel em detergente neutro (FDN), fibra insolúvel em detergente ácido (FDA) e lignina. Os teores de outros nutrientes, como os minerais, também são importantes para o adequado balanceamento das dietas, mas geralmente não são empregados para qualificar o valor nutritivo de silagens.

Em condições tropicais, o mais alto teor proteico é uma característica altamente desejável para os volumosos conservados, uma vez que, em regra, eles são utilizados durante período seco, quando o baixo teor proteico das pastagens é considerado o principal fator responsável pela limitação na produção de ruminantes mantidos a pasto. Além disso, o uso de forragens com elevados teores proteicos pode diminuir a necessidade de suplementação proteica na forma de concentrados e, consequentemente, reduzir os custos com a alimentação.

Em condições normais de alimentação, a silagem é utilizada como fonte de energia para os animais, sendo que a energia é o nutriente que mais limita o desempenho dos ruminantes. Além disso, vários dos componentes químicos de determinado alimento são relacionados à concentração energética disponível para os ruminantes. Alguns destes componentes, especialmente as frações lipídica e proteica, têm sido positivamente correlacionados à disponibilidade de energia, enquanto os componentes da parede celular têm apresentado correlações negativas com a disponibilidade energética dos alimentos.

Alternativamente, os coeficientes de digestibilidade têm sido rotineiramente empregados para qualificar silagens quanto ao seu valor energético. Devido à praticidade, ao baixo custo e boa correlação com os valores observados in vivo, o emprego da análise de digestibilidade in vitro da matéria seca ainda constitui um parâmetro aceito entre pesquisadores para qualificar o valor nutritivo de silagens.

Qualidade da silagem

Dentre os parâmetros utilizados para classificar as silagens, é importante ressaltar: os ácidos orgânicos, o nível de carboidratos solúveis, relação nitrogênio amoniacal/nitrogênio total (N-NH3/NT) matéria seca e pH.

No que diz respeito aos ácidos orgânicos, os ácidos acético, propiônico, isobutírico, butírico, valérico, isovalérico, succínico, fórmico e lático são os comumente determinados, sendo que o acético, burítico e o lático são os mais importantes. O ácido lático, em função de sua maior constante de dissociação, possui relevante papel no processo fermentativo da silagem, pois é o responsável pela queda do pH a valores inferiores a 4,2.

Quanto à relação N-NH3/NT, o teor de N-NH3/NT junto com o valor de pH são indicativos do processo fermentativo. Normalmente, a quantidade de amônia é utilizada como indicador da atividade clostridial proteolítica. E muitos trabalhos concordam com a utilização deste parâmetro na indicação do grau de proteólise na silagem. Entretanto, isso pode acarretar erros, pois o teor de amônia é apenas um indicador da quebra de aminoácidos. E pode ocorrer intensa proteólise sem um aumento significativo no conteúdo de amônia.

A concentração de N-amoniacal em forragens é usualmente menor que 1%. No entanto, a degradação protéica por enzimas das plantas e a ação das bactérias láticas, entéricas e de clostrídios alteram a composição da fração nitrogenada da silagem. O nitrogênio amoniacal da silagem é significativamente diminuído quando se ensilam materiais com valores altos de MS e carboidratos solúveis em água.

Uma silagem de boa qualidade deve ter a matéria seca entre 30-35%. Silagens que apresentam umidade muito alta têm uma série de desvantagens: primeiro, silagens muito úmidas têm um custo de produção maior, pois o transporte por quantidade de matéria seca fica mais caro; segundo, o pH de silagens muito úmidas tem que ser mais baixo para inibir o crescimento de Clostridia spp. Essas bactérias são indesejáveis por produzirem ácido butírico e degradarem a fração protéica, com consequente redução do valor nutricional da silagem; terceiro, mesmo que o nível de carboidratos solúveis seja o suficiente para promover fermentação lática, o consumo voluntário é diminuído; e quarto, silagens muito úmidas produzem efluentes que levam à perda de nutrientes de alta digestibilidade.

Em silagens muito úmidas, os efluentes gerados variam de 1 a 11% da MS e contêm a maioria dos componentes solúveis da forragem, como açúcares, ácidos orgânicos, proteínas e outros compostos nitrogenados.

Em silagens de sorgo variando de 23 a 29% de MS, não foram encontradas diferenças significativas para ganho de peso, ingestão da matéria seca e conversão alimentar em bovinos. No entanto, há uma correlação negativa entre umidade e consumo, de -0,93 a -0,95, indicando que a MS ou algum fator intimamente relacionado a ela é um dos fatores que mais influencia o consumo.

Embora sejam desejáveis forragens com teor de MS entre 30 e 35% para a ensilagem, silagens com teor de matéria seca acima de 40% são mais susceptíveis a danos por aquecimento e aparecimento de fungos, porque a remoção de oxigênio é dificultada por não permitir uma compactação adequada. Além disso, a fase aquosa da silagem perde mobilidade. Assim, produtos da fermentação se difundem mais lentamente entre as colônias de bactérias, não ocorrendo uma redução eficaz do pH para inibir a ação das enzimas da planta, enquanto que próximo às colônias torna-se tão ácido que a fermentação é inibida.

Em silagens com alto teor de matéria seca (MS), acima de 35%, o pH tem menor importância. Silagens com alto teor de matéria seca e com pH elevado podem ser de ótima qualidade, o que não é observado em silagens com teor de matéria seca adequado (30-35%); nestas silagens, o pH tem importância para avaliarmos a qualidade. O desenvolvimento de acidez é inibido pela falta de água e pela alta pressão osmótica. Então, o pH de silagens com alto teor de MS pode estar inversamente correlacionado com conteúdo de água.

Os valores de pH das silagens bem conservadas variam entre 3,6 e 4,2. Estas apresentam altas proporções de ácido lático em relação aos outros ácidos, desde que não se usem aditivos para restringir a fermentação. Por outro lado, a presença de acetato em grandes quantidades está relacionada à ação prolongada de coliformes e das bactérias heterofermentativas, com prejuízo para o balanço energético entre a forragem verde e ensilada. Uma silagem muito boa apresenta valores de pH entre 3,6 e 3,8; uma silagem boa entre 3,8 e 4,2; uma silagem média 4,2 e 4,6; e uma ruim possui valores de pH maiores que 4,6.

As bactérias láticas podem ser homofermentativas ou heterofermentativas. As primeiras convertem glicose e frutose em ácido lático e são predominantes no início do processo fermentativo de silagens bem conservadas. Já as bactérias heterofermentativas produzem além do ácido lático, não sendo, por isso, tão eficientes quanto às homofermentativas para promover a redução do pH.

Na silagem com alto teor de matéria seca (acima de 35%), o pH é um critério menos útil para medir qualidade, desde que a falta de água e a alta pressão osmótica podem restringir a fermentação e a produção de ácido; portanto, mesmo com pH alto, estas silagens podem ser consideradas de boa qualidade. Por outro lado, o aumento pH com alto teor de umidade está associado com proteólise, produção de aminas e ácido butírico.

Silagem de sorgo

O sorgo é uma espécie que apresenta grandes variabilidades genéticas para as características nutricionais, havendo, portanto, enorme potencial de exploração da mesma e programas de melhoramento capazes de desenvolver híbridos modernos de alto valor nutritivo, que proporcionariam alto desempenho animal, semelhante aos obtidos com silagens de bons híbridos de milho. Em virtude desta grande variabilidade do valor nutritivo da silagem de sorgo, não há como estabelecer uma comparação precisa entre a silagem de milho e de sorgo.

Vacas leiteiras alimentadas com silagem de sorgos de alta produção de grãos produziram mais leite que as alimentadas com silagem de sorgo do tipo forrageiro. Estudos avaliando as silagens de milho e sorgo, como volumosos para vaca leiteiras, observaram que a produção dos animais alimentados com silagem de sorgo foi 11,5% inferior aos alimentados com silagem de milho, sendo que foi relatado que vacas leiteiras alimentadas com sorgo de duplo propósito (porte médio) mostraram maior produção de leite em relação às vacas que receberam silagem de sorgo de porte alto, e semelhantes, aos animais alimentados com silagens de milho.

SILVA et al. (2014), ao avaliarem as silagens de milho, sorgo no estádio de emborrachamento e de grão leitoso para vacas leiteiras, concluíram que a silagem de milho garantiu maior produção de leite e ingestão de matéria seca que a silagem de sorgo ensilado no estádio leitoso (tabela 1). Já o estádio de maturação do sorgo não afetou o desempenho das vacas leiteiras.

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Nota-se que as vacas alimentadas com silagem de sorgo normal apresentaram menor produção que os animais alimentados com silagem de milho, porém as produções obtidas com os animais alimentados com silagem de sorgo com nervura marrom foram semelhantes (p<0,05) e garantiram a mesma produção dos animais alimentados com silagem de milho.

As diferenças observadas na literatura devem-se às distintas condições experimentais e à grande variabilidade genética do sorgo, comprovando assim dificuldade de se comparar de forma justa as silagens de milho e de sorgo. Como pode ser evidenciado, a silagem de sorgo pode ser utilizada como fonte de volumoso único para vacas leiteiras.

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