Novo pulgão no sorgo

Bovinos Pastagem Silagem Sorgo

Pulgão no sorgo: entenda mais sobre essa praga recente do sorgo no Brasil, veja como fazer a identificação, sua biologia e principais danos.

O sorgo é o quinto cereal mais produzido no mundo. No Brasil, a produção ultrapassou as 2 milhões de toneladas na safra 2018/19, com cerca de 50 sc/ha de produtividade média.

Apesar dos ganhos em produtividade observados nos últimos anos serem animadores, muitos fatores ainda limitam o potencial produtivo da cultura, como as pragas agrícolas.

Um grande exemplo disso é o pulgão da cana-de-açúcar (Melanaphis sacchari) que tem causado prejuízos ao sorgo na Ásia, sul da África e nas Américas.

O pulgão no sorgo é um assunto ainda recente no Brasil e, portanto, precisamos estar atentos nas lavouras, já que a identificação correta é um ponto chave no manejo. Por isso, veja aqui sua biologia, seus principais hábitos e os danos causados por esse inseto. 

De onde veio o pulgão no sorgo (Melanaphis sacchari)? Entenda seu histórico

Identificada inicialmente nas américas em 1922, a presença deste inseto era raramente notada em lavouras comerciais até meados de 2013 nos Estados Unidos.

Antes deste período, perdas de produtividade devido a essa praga praticamente não existiam. Desde então, a infestação descontrolada do pulgão da cana-de-açúcar tem causado perdas de produtividade, chegando a 100% em algumas lavouras comerciais de sorgo nos Estados Unidos e México.

No Brasil, relatos de danos do pulgão no sorgo em lavouras comerciais têm se tornado comuns em safras mais recentes.

Observações a campo nos sugerem que um desequilíbrio no ecossistema tem favorecido o desenvolvimento acelerado de grandes populações da praga, causando danos severos e muitas das vezes irreversíveis.

Apesar da causa real desse desequilíbrio ser desconhecida até o momento, a migração ou surgimento de um novo biótipo de pulgão no Brasil são possíveis fatores

Situação atual do pulgão no sorgo nas lavouras brasileiras

Dados científicos indicam que este pulgão é um novo biótipo do pulgão da cana-de-açúcar que migrou para o sorgo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a espécie do pulgão identificado como praga em 2013 foi considerada idêntica ao pulgão da cana-de-açúcar (Melanaphis sacchari) dentro dos padrões taxonômicos.

No Brasil ocorreu o mesmo. Segundo artigo publicado na Revista Cultivar, testes independentes realizados pelo Laboratório de Diagnóstico e Biotecnologia/Laboratório Nacional Agropecuário de Goiás do Mapa, confirmaram que indivíduos do pulgão coletados em regiões específicas de Goiás na safrinha 2020 pertenciam a espécie Melanaphis sacchari.

Apesar desse resultado demandar futuras validações em outras regiões do país, há indícios que o pulgão pertence de fato a espécie Melanaphis sacchari devido aos seguintes fatores:

  • Avaliações visuais da morfologia do inseto
  • Sintomas pós-ataque
  • Padrão de infestação de lavouras de sorgo em diferentes regiões do Brasil

Pesquisas internas da Sementes Biomatrix, em colaboração com o USDA e universidades brasileiras, estão em andamento para confirmar a identidade do pulgão.

Uma vez que os indícios sugerem que o pulgão pertence à espécie Melanaphis sacchari, o intuito deste primeiro trabalho é descrever a biologia e o comportamento do inseto e os danos que ele pode causar.

Como identificar o pulgão no sorgo (Melanaphis sacchari)

O pulgão Melanaphis, ou pulgão da cana, pode ter cores que variam entre amarelo, cinza e bronze. Possui um par de projeções tubulares (cornículos) na parte traseira do abdômen, pés (tarsos) e antenas de cor preta. 

Esses membros escuros contrastam intensamente com a cor mais clara do resto do corpo, como podemos ver abaixo:

Características importantes para identificação do pulgão da cana (Melanaphis sacchari)
Fonte: Rick Grantham, OSU


Essas características visuais facilitam a diferenciação do pulgão Melanaphis de outras espécies de pulgão que podem estar presentes em lavouras de sorgo. Veja abaixo também as diferenças visuais do pulgão da folha do milho, pulgão amarelo da cana e o pulgão verde em relação a esse “novo” pulgão (pulgão da cana):

Comparação visual das principais espécies de pulgão presentes em lavouras de sorgo em relação ao pulgão da cana, que vem se destacando nas últimas safras. Fonte: Scott Amstrong, USDA

Danos causados pelo pulgão no sorgo

O pulgão Melanaphis se alimenta na parte de baixo das folhas de sorgo e as colônias iniciais não passam de poucos indivíduos, mas podem cobrir rapidamente grande parte da área foliar inferior. 

A produção de grande quantidade de exudado açucarado (melado) é uma característica marcante deste pulgão, o que deixa as folhas do sorgo grudentas e com intenso brilho.

Evolução da infestação do pulgão no sorgo (Melanaphis) em condições subtropicais durante o verão
Fonte: Claudio Zago, Jurandir Segundo e Geraldo Carvalho Jr, Helix Sementes


Vale ressaltar que o pulgão Melanaphis não se alimenta na parte superior das folhas, mas pode se movimentar facilmente para a panícula. 

Ainda ressaltamos que a presença de melado nas folhas do sorgo é um forte indicativo da presença do Melanaphis na lavoura.

Danos potenciais do pulgão no sorgo

Os danos causados pelo Melanaphis podem variar de moderado a severo dependendo do estágio em que a infestação se iniciou, eficiência do controle químico e a escolha da cultivar.

Do ponto de vista biológico, o pulgão Melanaphis se alimenta através da sucção da seiva das plantas. Não existem evidências mostrando que essa espécie injete toxinas, mas o simples ato de sugar causa uma mudança de cor nas plantas que pode variar de bronze a vermelho até atingir a cor marrom indicando morte do tecido vegetal.

Infestações em fases anteriores ao emborrachamento causam os danos mais severos, uma vez que a emissão das panículas pode não ocorrer ou ocorrer de forma desuniforme, como observamos abaixo:

Danos causados pela alta infestação do pulgão Melanaphis em lavoura comercial
Fonte: Lloyd Mbulwe, ZARI

O ataque em fases mais tardias também compromete a produtividade de grãos, embora os danos tendam a ser moderados.

Além disso, a produção de melado produz efeitos indiretos indesejados. Em grandes quantidades, o melado dificulta a colheita mecanizada porque propicia maior travamento do sistema de corte e alimentação da colheitadeira, além de comprometer a separação e limpeza de grãos das plantas.

Em sorgos silageiros, a presença do melado per se compromete drasticamente a qualidade da silagem.
Indiretamente, a presença do melado favorece frequentemente a formação de fumagina (aspecto de um mofo preto) nas folhas:

Morte de tecido e presença de fumagina em folhas baixeiras de sorgo atacado pelo pulgão Melanaphis
Fonte: Jurandir Segundo, Helix Sementes


Esse mofo inibe a absorção de luz pelas folhas necessárias para fotossíntese comprometendo o desenvolvimento adequado das plantas. Além do mais, pode reduzir a eficiência de inseticidas e dessecantes quando utilizados.

Reprodução e desenvolvimento do pulgão no sorgo

A reprodução do pulgão Melanaphis é muito rápida. Por isso o pulgão pode causar danos irreversíveis durante o desenvolvimento da cultura.

Em condições subtropicais indivíduos imaturos atingem a fase adulta em aproximadamente cinco dias, sobrevivendo por mais quatro semanas.

Já em condições tropicais típicas do Brasil a reprodução do pulgão pode ser ainda mais rápida. Condições quentes e secas, muito comuns na safrinha, são ótimas para o desenvolvimento do Melanaphis.

Em menos de duas semanas a população do Melanaphis pode aumentar em até dez vezes se não houver controle químico.

Assim, uma vez que o pulgão for encontrado na lavoura recomenda-se realizar o monitoramento da lavoura duas vezes por semana.

Quando o número de indivíduos nas colônias do pulgão aumenta demasiadamente e a competição por espaço e alimento cresce, indivíduos alados (com asas) aparecem. 

Apesar de não voarem bem, o vento pode levar adultos alados por longa distâncias onde estabelecem novas infestações.

Foto em alta resolução de um exemplar de pulgão Melanaphis alado em comparação com indivíduos imaturos
Fonte: Lloyd Mbulwe, ZARI

Você pode ver mais sobre o manejo do pulgão no sorgo nesta série de lives da Embrapa: https://www.youtube.com/watch?v=lfKphgdZDJY

Conclusão

Até anos recentes, danos causados por pulgão no Brasil eram praticamente imperceptíveis. Hoje, a nossa realidade no campo mudou. Estamos no início da curva de aprendizagem para lidar com uma praga aparentemente nova no Brasil.

Estudos científicos e a confirmação em larga escala do biótipo ou biótipos do pulgão serão fundamentais para elucidação de manejos eficientes para o controle da praga no Brasil.

Atualmente, a Sementes Biomatrix tem desenvolvido parcerias globais para confirmação da presença do Melanaphis em diversas regiões produtoras de sorgo no Brasil.

Paralelamente iniciamos estudos de manejo para elaboração de estratégias de controle eficientes e que atendam a legislação brasileira. Assim que novos resultados forem obtidos voltaremos com novos artigos sobre o tema com foco nas estratégias de manejo para o controle do pulgão no sorgo.

Bibliografia

Bowling R., Brewer M., Kerns D., et al. Sugar aphid (Hemiptera: Aphididae): A new pest on Sorghum in North America. Journal of Integrated Pest Management 7(1), 2016.Como lidar com a incidência de pulgão no sorgo. Revista Cultivar. 2020. Disponível em: https://www.grupocultivar.com.br/materias/como-lidar-com-a-incidencia-do-pulgao-em-sorgoCrops – visualize data. FAO, 2020. Disponível em: http://www.fao.org/faostat/en/#data/QC/visu alizeKnutson A., Bowlin R., Brewer M., et al. The sugarcane aphid: management guidelines for grain and forage sorghum in Texas. ENTO-035, 2016.Série histórica das safras. Sorgo. CONAB, 2020. Disponível em: https://www.conab.gov.br/info-agro/safras/serie-historica-das-safras?start=30Villanueva R., Brewer M., Way M., et al. Sugarcane aphid: a new pest of sorghum. 2016.

Agradecimentos: Fotos apresentadas nessa publicação foram gentilmente fornecidas e o uso autorizado por Rick Grantham, OSU; Scott Amstrong, USDA; Claudio Zago, Helix Sementes; Jurandir Segundo, Helix Sementes; Lloyd Mbulwe, ZARI.

Autor:
Geraldo Afonso de Carvalho JuniorMelhorista, Helix SementesPost Doc, Melhoramento de Sorgo para Qualidade Nutricional – Texas A&M UniversityPh.D., Melhoramento de Plantas – Texas A&M UniversityM.S., Genética e Melhoramento de Plantas – Universidade Federal de ViçosaB.S., Agronomia – Universidade Federal de Viçosa

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