Moscas do Chifre Desafio Na Fazenda

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O controle de moscas, em fazendas leiteiras, não é uma operação simples e constitui um dos mais sérios desafios enfrentados, atualmente, pelos profissionais e produtores

INTRODUÇÃO

Os dípteros (moscas e mosquitos) constituem uma das ordens de insetos mais numerosas conhecidas, estimando-se em 150.000, no mínimo, as espécies descritas hoje em dia em todo o mundo. Seu controle é dificultado pela diversidade das instalações, tipos de manejo das propriedades, topografia local, variações climáticas e, principalmente, pela rápida capacidade de adaptação das moscas aos inseticidas.

DESENVOLVIMENTO DAS MOSCAS

O crescimento do corpo das moscas se dá por meio de mudas (ou ecdises) da cutícula. Durante o desenvolvimento, elas sofrem várias ecdises, com mudanças na sua forma. Cada fase evolutiva, seguida ou precedida de uma muda, recebe o nome de estádio ou estágio. O desenvolvimento das moscas é denominado como holometabólico ou metamorfose completa. Nos insetos que apresentam este tipo de desenvolvimento, as formas jovens (larvas e pupas) diferem dos adultos tanto no aspecto morfológico como no ecológico e fisiológico. Podem ser identificadas as seguintes formas evolutivas: ovo, larva (três ou mais estádios larvais), pupa e adultos (machos e fêmeas).

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Os ovos são sempre colocados em locais que reúnem condições para o desenvolvimento das larvas, sendo denominados criadouros. O tipo de criadouro varia de espécie para espécie. O desenvolvimento larval inclui pelo menos três fases, cuja duração depende da disponibilidade de alimento e da temperatura, especialmente para as larvas que se desenvolvem no meio ambiente. Já nas espécies cujas larvas são parasitas dos tecidos de animais vivos, a duração do período larval é relativamente constante. No final do desenvolvimento larval formam-se as pupas, que ocorrem no mesmo criadouro das larvas ou no solo. A duração do período de pupa depende, fundamentalmente, da temperatura, já que as mesmas não se alimentam. Os adultos emergem do pupário e reiniciam o ciclo.

IMPORTÂNCIA

Do ponto de vista sanitário, os insetos parasitas e/ou vetores representam importantes pragas, quer seja pelos danos diretos que ocasionam aos animais ou por onerarem os custos de produção, pela necessidade do emprego de inseticidas. Os danos aos animais e à produção podem ser caracterizados de duas formas:
Danos diretos: espoliação de sangue, reações alérgicas e lesões de pele.
Danos indiretos: transmissão de agentes patogênicos (vírus, riquétsias, bactérias, protozoários e nematoides), gastos com controle (inseticidas, mão de obra, etc.), perda de peso e retardo no crescimento, e diminuição da produção de leite e carne.

De maneira geral, as moscas podem atuar por três mecanismos distintos de transmissão de agentes patogênicos:
1. Pela ingestão de agentes patogênicos, com consequente eliminação em suas fezes, ou pela ação de hematofagia (moscas hematófagas).
2. Pelo regurgitamento de agentes patogênicos após o armazenamento temporário no seu sistema digestivo e sua deposição, em forma de gotas de vômito, enquanto se alimentam.
3. Pela dispersão de germes nos alimentos, por meio das patas, asas e labela.

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Foto: Uma infestação de 500 moscas provoca uma perda de, aproximadamente, 60 mL de sangue por dia.

MOSCAS HEMATÓFAGAS

STOMOXYS CALCITRANS

São moscas hematófagas, pois alimentam-se de sangue, e conhecidas, popularmente, como moscados-estábulos. Atacam diversas espécies animais e inclusive o homem, porém preferem cavalos e bovinos. Em geral, preferem as regiões inferiores do corpo do animal, como pernas e ventre. São mais ativas pela manhã e ao final da tarde, sendo, portanto, uma espécie de hábito, tipicamente, diurno.

Atualmente, o díptero também é conhecido como mosca-da-vinhaça, mosca-do-bagaço, mosquitão e mosca-do-gado.

Machos e fêmeas são hematófagos, e após a cópula as fêmeas põem cerca de 800 ovos, parceladamente, em lotes de 25 a 50. O período larval compreende três estádios e dura entre 11 e 30 dias. O desenvolvimento das larvas ocorre em resíduos orgânicos de origem vegetal ou animal em processo de decomposição ou de fermentação, com umidade elevada e temperatura entre 15o C e 30o C. Fezes de animais domésticos, cama de aviários e de outros animais, palha, feno, restos de lavouras, bagaço de cana ou de frutas, grãos ou farinhas umedecidas, resíduos alimentares acumulados em confinamentos de animais, misturados com fezes e urina, podem servir como substrato para o desenvolvimento das larvas da mosca.

As larvas completamente desenvolvidas procuram lugares mais secos e se enterram no solo para pupar. Geralmente, o período pupal é de 6 a 20 dias no verão, mas pode variar de acordo com a temperatura. Após isto, o adulto emerge rapidamente e, após esticar suas asas, estará pronto para voar em menos de uma hora. O seu voo é rápido, de longo alcance, chegando a atingir uma distância aproximada de até 30 Km do local de criação. As fêmeas iniciam a oviposição 9 dias após terem abandonado o pupário. O período completo do ciclo evolutivo é cerca de 20 a 30 dias, quando as condições climáticas são favoráveis. Os adultos, após 6 horas de sua emergência, estão aptos a realizar a hematofagia. O período médio de vida de uma mosca adulta é de 15 a 30 dias.

Alguns picos populacionais de S. calcitrans têm sido recentemente associados à expansão da indústria sucroalcooleira ou alcooleira em áreas de pecuária e aos subprodutos gerados em larga escala por essa atividade. Estes surtos, ocorridos principalmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, têm causado expressivos problemas à bovinocultura regional.

A fertirrigação, feita com vinhaça, nas plantações de cana-de-açucar, atrai e estimula as moscas-dos-estábulos à postura de seus ovos, também a palhada deixada no campo, na compostagem e nos tanques de vinhaça. A topografia do terreno e as chuvas contribuem para que sejam formadas as poças cheias de vinhaça, local propício para a procriação da mosca.

Além da perda de sangue, a sucção pela mosca é dolorosa, e dura de três a quatro minutos. A quantidade de sangue ingerida em cada picada pode ultrapassar três vezes (25,8 mg) o seu peso médio (8,6 mg). A espoliação e a irritação, provocadas nos animais, determinam uma diminuição do peso corporal (15% a 20%) e prejuízo na produção de leite (40% a 60%). Os níveis de perdas e prejuízos dependem do grau de infestação nos animais.

Com o objetivo de avaliar a capacidade de S. calcitrans em carrear bactérias envolvidas nas etiologias das mastites bovinas, foi realizado um trabalho de pesquisa, no qual se verificou a coincidência de bactérias existentes no leite proveniente de vacas portadoras de mastite e em S. calcitrans, coletadas em 10 propriedades rurais dos municípios de Quatis e Resende, ambos pertencentes à Microrregião do Vale do Paraíba Fluminense/RJ. Os pesquisadores observaram a coincidência entre isolados de Escherichia coli e Staphylococcus aureus a partir de amostras de leite e moscas coletadas de uma mesma propriedade, e foram identificadas Staphylococcus spp. coagulase (+), Bacillus spp., Staphylococcus saprophyticcus, Enterobacter agglomerans e Shigella spp., tanto em amostras de leite quanto em amostras de moscas de propriedades leiteiras dos municípios estudados.

S. calcitrans também pode transmitir os seguintes microrganismos patogênicos: Trypanosoma evansi (Mal de cadeiras em equinos), Anaplasma marginale (Tristeza parasitária bovina) e vírus da Anemia Infecciosa Equina.

Além disso, estas moscas atuam como hospedeiro intermediário de Habronema spp. (nematoide parasita do estômago de equinos), e são importantes veiculadores de ovos de Dermatobia hominis (mosca do berne).

O controle de S. calcitrans pode ser realizado de três maneiras:
1. manejo do esterco e da ração, com objetivo de impedir o desenvolvimento larval;
2. aplicação de inseticidas residuais nas áreas de pouso das moscas (paredes de estábulos, abrigos, muros, arbustos, cercas, etc.);
3. aplicação de inseticidas sobre os animais.

O controle de S. calcitrans baseia-se, inicialmente. no manejo sanitário de esterco (dejetos) e dos restos vegetais gerados na propriedade. Os dejetos e a cama dos animais devem ser recolhidos regularmente e colocados em esterqueiras projetadas para impedir o acesso das moscas. Podem, alternativamente, ser espalhados em camadas finas sobre o solo para que a insolação promova a morte de ovos e larvas. Os restos vegetais como palhadas de arroz, café, etc., devem ser manejados de forma a não se constituírem em criadouros. Em suma, toda a matéria orgânica vegetal poderá ser submetida ou a processos de fermentação ou de insolação para impedir o desenvolvimento das larvas. As altas temperaturas atingidas na fermentação e a desidratação provocada pela insolação são letais para ovos e larvas em desenvolvimento.

A Musca domestica (mosca doméstica) compartilha do mesmo substrato, portanto, as medidas de controle servem para ambas.

Importante ressaltar que todo programa de controle de insetos-praga exige o monitoramento ambiental de populações (fauna) não alvo, como medida preventiva de impactos indesejados na biodiversidade e no meio ambiente. Trabalhos devem ser realizados no intuito de reconhecer a dinâmica populacional, bioecologia e métodos de controle alternativo do inseto, com a utilização de fungos e bactérias entomopatogênicas, nas áreas destinadas ao cultivo da cana-de-açúcar próximas aos locais de criação de bovinos, com vistas à elaboração de um programa de manejo da mosca-dos-estábulos. 

No controle de moscas também podem ser utilizadas armadilhas, contendo substâncias atrativas como feromônio, placas ou painel com cola entomológica.

HAEMATOBIA IRRITANS grande desafio 3.PNG (3 KB)

H. irritans, conhecida como mosca-dos-chifres, é encontrada em grande número na base dos chifres, orelhas e pescoço dos animais, e se alimentam de sangue. As fêmeas só deixam esses locais para a postura de ovos, que é feita sobre as fezes frescas dos bovinos. A quantidade de sangue consumida, diariamente, é considerável, pois uma infestação de 500 moscas (1:1 macho e fêmea) provoca uma perda de, aproximadamente, 60 mL de sangue por dia.

A sua sobrevivência no ambiente varia de 3 a 7 semanas sendo que, nesse período, uma fêmea é capaz de produzir de 370 a 400 ovos. Os ovos eclodem em, aproximadamente, 24 horas, dando origem a larvas que se alimentam do bolo fecal e completam o seu desenvolvimento em 3 a 5 dias. A fase de pupa dura, em média, 4 a 8 dias. O seu ciclo de ovo até adulto pode durar apenas 10 dias nos períodos quentes e úmidos, e até 50 dias nos períodos frios e secos do ano.

Como característica importante, os animais reduzem a ingestão de alimentos devido à ação irritativa da mosca, determinando, consequentemente, queda que pode chegar a 15% na produção de leite. 

A mosca-dos-chifres causa uma perda estimada em 730-750 milhões de dólares na bovinocultura nos EUA. No Brasil, estima-se um prejuízo de US$ 150 milhões, considerando o rebanho nacional de bovinos.

A estefanofilariose é uma doença mundialmente distri – buída e caracteriza-se por lesões na pele causadas por nematódeo do gênero Stephanofilaria stilesi. É mais prevalente no verão, devido à maior proliferação de moscas, como Musca conducens e Haematobia irritans, consideradas vetores do parasita, e acomete várias espécies animais. No Brasil, há muito poucos relatos, e as lesões foram observadas na cabeça, na região escapular, no teto e no jarrete, próximas à cauda, na garupa, na coxa e na quartela. São frequentes na pele da mama, principalmente nos quartos anteriores do úbere, o que a faz popularmente conhecida como úlcera da lactação.

Para o controle de H. irritans, recomenda-se a pulverização do corpo do animal com produtos à base de piretroides ou organofosforados e manejo adequado dos dejetos. Para o controle químico, podem ser emprega – dos diferentes métodos, tais como: imersão e asper – são, pour-on e spot-on; autoaplicadores com panos impregnados pelos princípios ativos da forma líquida ou pó; e elementos de aplicação externa como brincos e colares, muito utilizados nos EUA e Canadá. As drogas mais utilizadas nestes casos são: Fenvalerato, Permetrina, Decametrina, Diazinon, Metil-Pirifos e Fention.

DO PONTO DE VISTA SANITÁRIO, AS MOSCAS REPRESENTAM IMPORTANTES PRAGAS, QUER SEJA PELOS DANOS DIRETOS QUE OCASIONAM AOS ANIMAIS OU POR ONERAREM OS CUSTOS DE PRODUÇÃO, PELA NECESSIDADE DO EMPREGO DE INSETICIDAS

O controle desta praga não está restrito ao uso de drogas, pois vários estudos vêm sendo desenvolvidos no sentido de se buscar possíveis controladores biológicos como predadores ou parasitoides de H. irritans. Nesse sentido, preconiza-se ainda o controle biológico, utilizando-se o Bacillus thuringiensis, Digitonthophagus gazella (besouro africano), e ácaros das famílias Trombidiidae, Histiostomatidae e Macrochelidae, e ainda a higiene dos estábulos, como o manejo adequado das fezes dos animais, especialmente aqueles criados em confinamento.

MOSCA: PRINCIPAL TRANSMISSOR DA MASTITE ENTRE NOVILHAS

A ocorrência de mastite em novilhas, causada por Staphylococcus aureus, é extremamente danosa para o rebanho, especialmente para os que apresentam baixa contagem de células somáticas (CCS) e bom controle de mastite, uma vez que nesses casos as novilhas podem se tornar a principal fonte de disseminação do agente no rebanho, visto que o S. aureus é uma bactéria contagiosa.

Normalmente, a glândula mamária dos animais jovens não é examinada antes do início da primeira lactação ou antes do aparecimento de casos clínicos de mastite. A presença de infecções intramamárias em novilhas tem efeito negativo sobre a produção de leite futura. Estima-se que um quarto mamário de uma novilha infectada antes do parto produz cerca de 18% menos de leite, quando comparado com um quarto sadio. As principais origens de microrganismos causadores de mastite em novilhas incluem ambiente com acúmulo de lama e umidade, presença de moscas e o hábito das bezerras de mamarem umas nas outras.

As moscas têm grande importância como agentes transmissores da mastite em novilhas, especialmente as moscas picadoras e sugadoras. Essas moscas transmitem os patógenos causadores de mastite quando se alimentam na extremidade do teto, provocando pequenas lesões, as quais possibilitam o desenvolvimento dos agentes causadores de mastite. As moscas podem, também, funcionar como simples vetores mecânicos, transferindo patógenos de superfícies contaminadas, como tetos que não foram submetidos à antissepsia com desinfetantes, ou com leite residual, para as glândulas mamárias das novilhas. Portanto, um bom controle de moscas é uma das medidas que auxilia na redução da transmissão de patógenos de animais infectados para novilhas e vacas com lesões na extremidade dos tetos.

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Foto: As moscas têm grande importância como agentes transmissores da mastite em novilhas, especialmente as moscas picadoras e sugadoras.

TABELA. Prevalência de mastite em rebanhos com e sem controle de moscas

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CONSIDERAÇÃO FINAL

O controle de moscas deve ser realizado de forma integrada. O controle químico deve ser escolhido com critério, procurando estimar, em cada região, as épocas e frequências mais adequadas para o tratamento, visando uso racional com objetivo de evitar o aparecimento de resistência à curto prazo. Pode-se dizer que existem três mecanismos envolvidos na resistência de insetos aos inseticidas químicos e orgânicos, que são: redução da penetração do inseticida pela cutícula do inseto, detoxificação ou metabolização do inseticida por enzimas, e redução da sensibilidade no sítio de ação do inseticida no sistema nervoso.

Considerando-se o hábito alimentar destes insetos e seu modo de multiplicação, as medidas de ordem sanitária são da maior importância na profilaxia e controle das populações. Logo, é melhor prevenir a multiplicação evitando os criadouros, do que combater o adulto diretamente.

PAULO FRANCISCO DOMINGUES 
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – Unesp, Campus De Botucatu

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